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27 de abril de 2014

Concurso Nacional de Leitura - fase distrital

No dia 23 de abril, dia Mundial do Livro, decorreu a fase distrital do Concurso Nacional de Leitura.
As nossas alunas do terceiro ciclo e do ensino secundário deslocaram-se à Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova para mais uma etapa, na qual estiveram envolvidos mais de uma centena de alunos, todos do nosso Distrito. 

Parabéns à Rita Claro pelo merecido prémio "Microconto" do terceiro ciclo. 
Felicitações a todas pela participação!

30 de janeiro de 2013

28 de novembro de 2012

O Natal em que fiquei rica



Ser pobre e satisfeito é ser rico. E bastante rico.
William Shakespeare

Havia uma árvore naquele Natal. Não tão grande e frondosa como outras, mas estava pejada de enfeites e tesouros e resplandecia de luzes. Havia presentes, também. Alegremente embrulhados em papel vermelho ou verde, com etiquetas coloridas e fitas. Mas não tantos presentes como de costume. Eu já tinha reparado que a minha pilha de presentes era muito pequena.
Nós não éramos pobres. Mas os tempos eram difíceis, os empregos escassos, o dinheiro à justa. A minha mãe e eu partilhávamos uma casa com a minha avó e com os meus tios. Naquele ano da Depressão, toda a gente espaçava refeições, levava sanduíches para o trabalho e ia a pé para poupar nos bilhetes de autocarro. Anos antes da Segunda Guerra Mundial, já vivíamos no dia-a-dia, como muitas outras famílias, o que então se iria ouvir como slogan: “Usa-o, aproveita-o ao máximo; faz com que funcione, ou passa sem ele.”
Havia poucas escolhas. Compreendia pois porque era tão pequeno o meu monte de presentes. Compreendia, mas sentia, ainda assim, uma ponta de pesar à mistura com um complexo de culpa. Sabia que não poderia haver surpresas empolgantes naquelas poucas caixas vistosamente embrulhadas. E sabia que uma delas tinha um livro. A minha mãe arranjava sempre um livro para mim. Mas nada de vestidos novos, camisolas ou um roupão acolchoado e quentinho. Nenhum dos miminhos tão desejados na altura do Natal…
Havia uma caixa com o meu nome da parte da minha avó. Guardei-a para o fim. Talvez fosse uma camisola nova, talvez um vestido — um vestido azul. A minha avó e eu gostávamos ambas de lindos vestidos e de todas as tonalidades de azul. Soltando os devidos “Ohs” e “Ahs” ao ver a aromática barra de sabonete feito de mel, as luvas vermelhas, o já esperado livro (um novo da Nancy Drew!), rapidamente cheguei àquele último embrulho. Dei por mim a sentir uma centelha do entusiasmo do Natal… Era uma caixa bastante grande. Com vergonha de mim mesma por ser tão gananciosa, por esperar receber um vestido ou uma camisola (mas esperando na mesma!), abri a caixa.
Meias! Só meias! Soquetes, meias altas, até mesmo um par daquelas meias horrorosas de algodão branco que estavam sempre a escorregar e se enrodilhavam em volta dos joelhos.
Esperando que ninguém tivesse dado conta do desapontamento, peguei num dos quatro pares e agradeci à minha avó, com um grande sorriso. Ela também sorria. Não com o seu sorriso educado e distraído de “Sim, querida,” mas com o seu sorriso feliz e radiante, de “Isto são coisas importantes para uma mulher!” Será que me esquecera de alguma coisa? Olhei de novo para a caixa no chão — nada, a não ser as meias. Só que agora eu conseguia ver que havia outro par por debaixo do que eu tinha pegado. Duas camadas de meias. E mais uma! Três camadas de meias!
A sorrir de verdade, comecei a retirá-las da caixa. Meias cor-de-rosa, meias brancas, meias verdes, meias de todos os tons inimagináveis de azul. Toda a gente estava a olhar, rindo comigo, enquanto eu atirava as meias ao ar e as contava. Doze pares de meias!
Levantei-me e dei um abraço tão apertado à minha avó que até nos doeu às duas. “Feliz Natal, menina Joan!” disse ela. “Agora, todos os dias, terás muitas escolhas a fazer. Estás rica, minha querida! ” E era verdade. Naquele Natal e durante todo o ano, todas as manhãs, eu escolhia do meu elegante armário da roupa interior qual o par de meias a usar. E sentia-me rica. E ainda sinto!
Mais tarde, a minha mãe disse-me que a minha avó tinha andado a esconder aquelas meias durante quase um ano — poupando todas as moedinhas, comprando um par de cada vez. Um dia, tendo visto um lindo par de meias azuis com as beiras elásticas bordadas à mão, ela pedira mesmo ao compreensivo vendedor para deixar um sinal a reservá-las durante três semanas.
Dentro daquela caixa estava embrulhado um ano de amor.
Foi um Natal que eu nunca esquecerei.
A prenda da minha avó mostrou-me como as pequenas coisas podem 
ser  importantes.
E como o amor nos faz a todos imensamente ricos.
Joan Cinelli
Jack Canfield & Mark Victor Hansen
Chicken Soup for the Soul – Christmas Cheer
Chicken Soup for the Soul Publishing, LLC, 2008
(Tradução e adaptação)

18 de outubro de 2012

O sorriso no elevador


Num tempo em que os homens tinham desaprendido de sorrir, apareceu, certo dia, uma menina que tinha um sorriso tão simpático que uma pessoa até sentiria calor no coração, se o riso e a alegria não tivessem sido
expulsos há tanto tempo da Terra.
Não se ganhava nada com eles, diziam, e, hoje em dia, quem é que tem alguma coisa para dar?
Mas, um belo dia, sem nada o deixar antever, apareceu aquela menina no elevador…
A princípio, ninguém reparou, tão preocupadas estavam as pessoas consigo mesmas.
Nem sequer Tomás, que naquele dia regressava da escola. Seguia no elevador, sério, a refletir, quando, de repente, ouviu a menina perguntar:
— Também sabes rir?
Admirado, Tomás virou-se.
— Já não rio desde os quatro anos — resmungou.
— Porquê? — perguntou a menina.
— Rir não serve de nada. Não vale um cêntimo. Aprende-se isso logo no infantário.
Ao entrar mais tarde no elevador com a mãe, Tomás voltou a encontrar a menina.
— Olá! — disse ela com um sorriso radiante.
— Olá — balbuciou Tomás, envergonhado.
E subiram calados.
Mas como a menina não deixava de sorrir, Tomás também não conseguiu por fim conter um sorriso.
Pela primeira vez! Mas a mãe logo ficou muito assustada.
— Pára com isso! — ralhou-lhe ela. — Não temos nada para dar!
Tomás assustou-se e fez uma cara séria.
Mas não conseguia esquecer o sorriso da menina no elevador.
Quando, na manhã seguinte, voltou a encontrá-la, ficou tão satisfeito que esboçou um tímido sorriso.
— Mas tu sabes rir! — exclamou a menina, radiante.
Tomás ficou tão contente que até sentiu umas coceguinhas pelas costas acima.
Desta vez sorriu, extasiado, e as cócegas então é que não paravam… Nunca tivera uma sensação daquelas! Mas era uma sensação tão boa que ele agora sorria sem parar na rua, no autocarro, na escola, na padaria. E Tomás tinha um sorriso tão amável que as pessoas não conseguiam deixar de responder com outro sorriso. E como elas sentiam de repente um formigueiro, também não conseguiam parar de sorrir!
Nesse dia, Tomás voltou alegremente para casa.
Estava todo contente: iria voltar a ver a menina! Mas quando, a sorrir, abriu a porta do elevador, só encontrou alguns vizinhos … que lhe sorriram, hesitantes. A menina já lá não estava e nunca mais a viu…
Só tinha ficado aquela sensação agradável de formigueiro.
E a menina?
Ora bem, caso alguma vez a encontres no elevador, já sabes…
                                                                                                                                                                                               Elke Bräunling
Da wird dia Angst ganz klein
Limburg, Lahn Verlag, 1998
(Tradução e adaptação)

22 de maio de 2012

Próxima 6ªf na BE - "Filhos que leem para os Pais"


Pelas 18.30, na próxima 6ªfeira dia 25 de maio, as alunas que participaram na fase distrital do  Concurso Nacional de Leitura irão partilhar e apresentar algumas das suas leituras e receber os prémios da sua participação.
Lá estaremos para as ouvir, aplaudir e incentivar a futuras participações.
Parabéns a todas pelo vosso desempenho escolar exemplar.

25 de abril de 2012

Aluna da Campos Ganha 1º Lugar Distrital - Ler +


Decorreu no passado dia 20 de Abril, na Biblioteca Municipal de Vila Velha de Ródão, a fase distrital do CNL. A nossa Escola fez-se representar pelas alunas  Maria Lopes Fael (8ºA), Madalena Baía e Mariana Almeida (9ºA), Beatriz Martins, Julie Pais e Mariana Roberto (12º A).
À chegada, tivemos a grata surpresa de constatar que a Maria Lopes Fael do 8ºA fora a grande vencedora do concurso de melhor slogan subordinado ao lema «Ler mais ...», arrecadando, assim, o primeiro lugar com a sua criação:
 «Ler mais torna-nos personagens principais».
Muitos parabéns à Maria, com votos de muitos outros sucessos escolares e literários!



A Escola Secundária Campos Melo congratula-se com a prestação de todas as concorrentes e endereça-lhes, uma vez mais, a partir deste Breves Online, as suas felicitações.
Professora Olga Fonseca


27 de fevereiro de 2012

Honrar a palavra

No negócio de mobílias usadas, não se pode comprar por catálogo, como se faz com as novas. As pessoas aparecem e o comerciante tem de ir às casas vê-las e fazer o seu preço. “Não se pode vender o que não se tem,” costumava dizer o meu pai. Por isso, estas visitas eram de extrema importância para ele.

Quando eu tinha 13 anos, o meu pai ficou sem o gerente da loja, um homem que, com o seu único braço, trabalhava muito mais do que muitas pessoas com os dois. Conseguia, por exemplo, suspender uma cadeira da ponta de uma vara, içá-la no ar e fazê-la deslizar até uns ganchos presos ao teto, bem à vista de todos quantos entravam na loja. Na falta do gerente, o meu pai veio pedir-me ajuda, pedindo-me que ficasse à frente do balcão enquanto ele procedia às visitas do dia, até se encontrar a pessoa certa. A loja tinha dezenas de milhar de objetos. “As pessoas gostam de regatear,” disse-me, “por isso não há preços marcados. Apenas tens de ter alguns pontos de referência.”
Levou-me a dar uma volta pela loja. “Podes vender um pequeno motor por quatro dólares. Por um frigorífico, dependendo do estado em que se encontrar, podes pedir entre trinta e cinco e sessenta dólares. Se tiver congelador, poderás ir até aos oitenta, vá lá, até aos cem dólares, caso esteja em ótimo estado. Se uma junta estiver solta, é para o lixo. Não ligues a riscos ou rachadelas. Os pratos vêm com a mobília e nem sequer os levo em consideração quando lhes atribuo o preço. Poderás vendê-los por um preço simpático, algures entre os cinco e os vinte e cinco cêntimos.”
Todos os dias depois da escola, voava na minha bicicleta até à loja. Um dia, estava eu a escrever o preço de um prato muito bonito numa tirinha de papel quando o meu pai entrou. Tinha pedido um dólar e o comprador não hesitou. Fiquei todo contente. O meu pai viu o que eu estava a fazer, virou-se para o cliente e disse, “Que bela pechincha leva aí! O meu empregado fez-‑lhe o preço e é esse o preço certo.” Mais tarde, perguntei ao meu pai, “Porque é que o pai disse aquilo?”
Tratava-se, pelos vistos, de um prato antigo que valia umas boas centenas de dólares. Fiquei descoroçoado. Tanto que me esforçava por dar o meu melhor. Pelos vistos, em vez de ajudar o meu pai, estava a fazê-lo perder dinheiro.
“Se quisesse, podia ter impedido o negócio,” disse ele. “Estavas a escrever o preço e ainda não tinhas pegado no dinheiro. Além disso, és menor de idade. Só que um judeu honra a sua palavra e a dos seus colaboradores.”
Este incidente haveria de ter uma consequência. Anos mais tarde, a minha mulher e eu tivemos de mandar uma grande quantia de dinheiro para a nossa filha em Israel. Um funcionário do banco aconselhou a minha mulher a enviar o dinheiro através de cheque visado, uma vez que, dessa forma, estaríamos isentos do pagamento de comissões. Quando recebi o extrato bancário, porém, reparei que nos tinha sido debitada uma série de taxas. Decidi, então, ir falar com a gerente do banco e explicar-lhe que um funcionário seu é que nos tinha aconselhado sobre a melhor forma de evitar despesas com o envio do dinheiro. Ouviu-me em silêncio e, no final, disse apenas, “Lamentamos o sucedido, mas acontece que o colega deu uma informação errada.”
Foi então que lhe contei a história do meu pai e de como ele fazia sua a palavra dos seus empregados, honrando-a. Terminei, dizendo, “Isto aconteceu sem que o cliente tivesse sido lesado e tendo o meu pai descoberto o erro antes de a transação ter sido efetuada. Imagine só como ele teria agido se tivesse havido danos! Espero que o meu banco atue no mínimo com a mesma integridade do meu pai.”
Durante todo o tempo em que falei, a gerente não proferiu palavra e assim continuou, enquanto eu aguardava a sua reação. Quando falou, a voz era suave. “O Banco de Comércio Imperial do Canadá não ficará aquém do seu pai,” disse, com toda a dignidade. Prometeu, então, a anulação de todas as taxas indevidamente cobradas.
Enquanto lhe agradecia e me preparava para ir embora, senti-me grato por uma história de integridade ainda ter o poder, nos tempos que correm, de tocar os corações e acordar consciências no mundo impessoal dos negócios.

Rabbi Roy D. Tanenbaum

Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Rabbi Dov Peretz Elkins
Chicken Soup for the Jewish Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1999
(Tradução e adaptação)

13 de janeiro de 2012

Concurso Nacional de Leitura 2011-2012

Alunas da ESCM apuradas para a 2ªfase - Finais Distritais:


3ºCiclo:


Maria Lopes Fael - 8ºA


Mariana Moura Almeida - 9ºA


Madalena Baía - 9ºA



Secundário:


Julie Pais - 12ºA


Mariana Roberto - 12ºA


Beatriz Martins - 12ºA


Parabéns a todas, continuação de boas leituras e uma boa prestação na próxima fase!

10 de dezembro de 2011

NATAL NAS TRINCHEIRAS

A única coisa que separava os dois exércitos, naquela noite fria de Dezembro de 1914, era um pedaço de terra lamacenta chamado Terra de Ninguém. De repente, um cântico rompeu o ar gelado, celebrando o Natal em alemão, e logo um outro se lhe seguiu, em inglês.
Durante algum tempo, os inimigos deixaram de se guerrear e comportaram-se como amigos. Estima-se que, nesta trégua de Natal não oficial, participaram cerca de cem mil soldados.
Foi um momento único na história da humanidade.


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Os presentes tinham sido abertos e o jantar acabara. Depois de um longo passeio pelos campos cobertos de neve, o jovem Thomas aconchegou-se junto do avô e disse:
— Avô, este Natal foi o meu preferido. E tu, tens algum Natal favorito?
— Tenho, Thomas — respondeu o avô Francis. — Passei-o muito longe de casa, durante o primeiro Inverno da Grande Guerra.
— Estiveste na guerra, avô? — perguntou a pequena Nora, subindo para o colo dele. — Foste um herói?
O avô sorriu e sugeriu:
— E se começássemos pelo princípio?
As duas crianças aproximaram-se ainda mais dele.
— Foi em 1914. Os meus companheiros e eu estávamos há já várias semanas no campo de batalha. Sentíamo-nos sozinhos e assustados, embora tentássemos ser corajosos. Tínhamos passado um mês longo e frio em trincheiras lamacentas, que eram, naquela altura, a nossa casa.
Sabíamos que não haveria tréguas no combate e que passaríamos o Natal ali mesmo. Aquela véspera de Natal aconteceu numa noite igual à de hoje. Os céus estavam a clarear e a geada cobria a Terra de Ninguém, o campo que nos separava dos soldados alemães.
E ali estávamos nós, diante das trincheiras inimigas, à espera… Aparte as bombas e as batalhas, a guerra consiste em esperar. Esperar para ver quem vai dar o próximo passo. Nessa noite, sentimos que iam ser os Alemães. E tínhamos razão. De repente, uma sentinela fez sinal a pedir silêncio e ficámos todos calados.
Foi então que um som rasgou o frio da noite gelada.
O som provinha do lado inimigo da Terra de Ninguém e um soldado inglês que sabia alemão disse tratar-se de um cântico de Natal. Em breve, todos os Alemães entoavam a mesma canção. Quando terminaram, decidimos responder-lhes com um cântico de Natal que todos conhecíamos.
Depois, os Alemães entoaram “Noite Feliz”, ao qual nos juntámos, com a letra cantada em inglês. Foi como se a terra inteira entoasse o mesmo cântico… Nunca pensei que cantar fosse tão sagrado. De repente, a sentinela de vigia gritou:
— Aproxima-se alguém!
E, enquanto apontávamos as espingardas à escuridão de Dezembro, deparámos com algo de extraordinário. Uma figura vinha até nós através da Terra de Ninguém. Numa mão trazia uma bandeira branca, e na outra uma árvore de Natal cheia de velinhas. Era um gesto tão surpreendente e corajoso que não pude deixar de saltar da trincheira e de ir ter com aquele soldado.
Fui o primeiro de muitos. Em breve, todos os soldados de ambos os lados se encontravam fora das trincheiras. Era tudo tão novo e estranho que, no início, estávamos nervosos. Passado pouco tempo, porém, trocávamos já pequenas lembranças – chocolates, conservas de carne, tudo o que pudéssemos partilhar. Quando mostrámos uns aos outros fotografias de casa e da família, deixámos de ser soldados e de ser inimigos. Éramos apenas filhos e pais, longe da família e de casa.
Um dos nossos rapazes trouxe um acordeão e um dos deles começou a tocar violino. E acabámos por improvisar… um baile. Foi uma bela festa de Natal! Mas a alvorada em breve nos anunciou que tínhamos de regressar. Regressar às trincheiras, voltar a esperar. Pensar no que nos tinha acontecido e em qual seria o nosso próximo passo.
Esta é minha recordação favorita de Natal. Hoje sou um homem diferente por causa do rapaz que fui naquela noite.
O avô abraçou os netos com força.
— Será que fui um herói? Penso que, naquela noite, todos fomos heróis.


John McCutcheon; Henri Sørensen
Christmas in the trenches
Atlanta, Peachtree Publishers, 2006
(Tradução e adaptação)


NOTA HISTÓRICA
Embora este conto seja um relato ficcional, a trégua de Natal de 1914 foi um facto histórico, e teve lugar na linha de batalha entre a costa da Bélgica, a norte, e a fronteira da Suíça, a sul.


via A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias
http://es@contadoresdehistorias.com

18 de junho de 2011

Um tostão para o Santo António

Andava um garoto a pedir um tostãozinho para o Santo António. Uns davam, outros não.
Até que passou por ele um senhor de sobretudo comprido, até aos pés, e de sandálias, vejam bem. E se estava frio!
O garoto, cá de baixo, reparou no desconcerto, não deu importância. E vá de pedir:
— Dê-me um tostãozinho para o Santo António...
O senhor do sobretudo castanho todo esfarrapado debruçou-se para o miúdo e, sorrindo, disse-lhe assim:
— Tanto andas tu a pedir como eu. Hoje ainda não me deram nada.
— A mim já — respondeu o garoto. — Quer ver?
E mostrou-lhe, na palma da mão, umas tantas moedas. O mendigo contou-as.
— Davam e sobravam para pagar uma sopa e um pão, ali, na taberna da esquina — observou o mendigo.
— Mas eu não tenho fome — preveniu o garoto. — A minha mãe deu-me de almoçar, ainda agora.
O senhor mendigo suspirou e disse:
— Pois a minha mãe já morreu. Deve ser por isso que ainda não comi nada, hoje...
O mocinho olhou para o homem, a certificar-se se seria verdade o que ele dizia. Os olhos tristes do mendigo garantiram-lhe que sim.
Foi a vez de o garoto suspirar:
— Este dinheiro era para eu comprar berlindes...
O homem de sandálias admirou-se:
— Mas tu, há bocadinho, não pedias para o Santo António?
O garoto riu-se:
— É um costume. Quero eu lá saber do Santo António! É tudo para os berlindes.
O mendigo não estranhou a revelação. Percebia-se, a conversa ia ficar por ali. Despediu-se:
— Ainda tenho hoje muito que andar. Adeus e boa colheita.
O rapazinho viu-o descer a ruela, num passo cansado. Então, num impulso, correu atrás dele e puxou pela ponta da corda, que o homem trazia à roda da cintura:
— Tome lá para um pão e para uma sopa. Mas não vá ali àquela casa da esquina, que são uns mal-encarados. Na outra rua abaixo, há mais onde comer.
O homem de sandálias e sobretudo roto, que lhe davam um ar de frade de antigamente, agradeceu as moedas e o conselho e seguiu caminho.
O garoto voltou ao seu poiso. E quando, pouco depois, porque estava frio, meteu as mãos nos bolsos, encontrou-os atulhados de berlindes...


António Torrado
O mercador de coisa nenhuma
Porto, Livraria Civilização Editora, 1994

19 de maio de 2011

Concurso Nacional de Leitura 2010-2011 - Telma Vicente



Parabéns Telma!! Continua!!
A ESCM orgulha-se de te ter como aluna! Continuamos a acompanhar a tua prestação e a torcer por ti!!

No dia 14 de Maio tiveram lugar, em Lisboa, as semi-finais do CNL 2011 nas quais participaram 72 FINALISTAS provenientes de todo país. Estes finalistas foram inicialmente apurados de entre cerca de 20 000 candidatos oriundos de centenas de escolas do 3º. Ciclo e do Secundário. Nesta 1ª. FASE do CNL foram seleccionados cerca de 2000 concorrentes.


FINALISTAS


3º. CICLO


BRAGANÇA
Ana Margarida Gomes − Escola Secundária Emídio Garcia, Bragança
CASTELO BRANCO
José Alberto Ferreira − Escola Secundária Nuno Álvares, Castelo Branco
Rodrigo Lindeza − Escola Secundária Quinta das Palmeiras, Covilhã
COIMBRA
Gustavo Dias Afonso − Escola Básica Martim de Freitas, Coimbra
LISBOA
João Filipe Porfírio − Escola Secundária de Miraflores, Oeiras
SANTARÉM
João Filipe Madeira − Escola Secundária Ginestal Machado, Santarém



SECUNDÁRIO

AVEIRO
Augusto Rachão − Escola Secundária Manuel Laranjeira, Espinho
BEJA
Marisa Franco Sofrino − Escola Secundária de Moura
BRAGA
Filipa Dias − Escola Secundária D. Sancho I, Vila Nova de Famalicão


CASTELO BRANCO
Telma Vicente − Escola Secundária Campos de Melo, Covilhã


FARO
Ana Rita Silva − Escola Secundária Francisco Fernandes Lopes, Olhão
VILA REAL
Rafael Miranda − Escola Básica e Secundária António da Natividade, Mesão Frio

2 de abril de 2011

Assim não jogo

Hoje vou falar de futebol. Era uma vez um jogador que se chamava Medo. Um grande jogador! — Vamos jogar contra o Medo — diziam, antes do desafio, os adversários, cheios de medo. Mas, um dia, lesionou-se. — Estamos muito desfalcados — lamentavam-se os companheiros de equipa. — Sem o Medo não é a mesma coisa. Foram buscar o suplente. Por acaso, o rapaz até se chamava Nervos. Era o Zé Nervos, não muito jeitoso a dominar a bola, mas com uma potência no remate de virar os guarda-redes do avesso. Já o primo dele, o Chico Nervos, que também jogava, mas a meio-campo, não havia quem o suplantasse como armador de jogo. — Rapazes, hoje a táctica é toda por conta dos Nervos — anunciava o treinador, nos balneários. — Com os Nervos ao ataque, temos a vitória garantida. E tiveram. Naquele jogo e no outro e nos outros que se seguiram o êxito foi estrondoso. Os adversários levavam abadas de chocar. — Vocês não têm mais irmãos ou primos com queda para o futebol? — perguntava aos dois Nervos o treinador. — Se tiverem, eu contrato-os. Com os Nervos todos do nosso lado, bem controlados por mim, seremos imbatíveis. Por sinal que eles não tinham mais parentes virados para o desporto. Eram os únicos Nervos futebolistas da família. Mas chegavam. — Nervos! Nervos! Nervos! — gritavam os espectadores, nas bancadas. Até parecia que a força dos Nervos se comunicava aos restantes jogadores. Tanto se destacavam os primos que os jornais quase se esqueceram do nome dos outros futebolistas, do treinador e do próprio clube, para apenas designarem a equipa com títulos deste género: avalanche de Nervos, Nervos a mais, ataque de Nervos, com um entusiasmo e um exagero que – brr! – até enervavam. Entretanto, o Medo, aquele jogador que se tinha lesionado no princípio da história, restabeleceu-se. Estava, de novo, pronto para jogar. O treinador fez umas substituições, uns acertos e, sem dispensar os primos Nervos, mandou vir o Medo. — Por este andar, com uma equipa deste nível, vamos ganhar a Taça das Taças das Taças das Taças — dizia o treinador, a esfregar as mãos e a rir-se. Riso de pouca dura. O primeiro jogo com a nova formação foi um desastre. O segundo jogo, uma calamidade. Do terceiro jogo já não posso falar, porque não assisti. Sem, ao menos, um jantar de despedida, os dirigentes do clube puseram-me na rua. Sim, era eu o treinador da equipa, esqueci-me de avisar no princípio. Depois deste desaire, nunca mais voltei a um estádio. Mudei de vida. Empreguei-me a escrever histórias... Mas uma coisa aprendi da minha passagem pelo desporto: com Nervos e Medo juntos, nunca se consegue ganhar.

António Torrado www.historiadodia.pt

17 de fevereiro de 2011

O Zé Botarras

— Já saiu toda a gente, Alice?
— Suponho que sim, D. Alda... só não vi no Cantinho da Leitura.
Efectivamente, a um canto, alguém estava debruçado sobre um livro, indiferente às horas de saída. Era o José Miguel.
Zé Botarras para os amigos. Migas para a mãe. E simplesmente José para o pai. Frequentava o 10º ano numa das secundárias da terra e já não era a primeira vez que a funcionária via aquele corpo esguio, vestido de preto, sentado ali naquele canto da biblioteca.
Agora que o via de pé, Alice lembrava-se que aquela mesma figura lhe tinha despertado a atenção há dois ou três dias atrás. O mesmo corte de cabelo, o mesmo blusão e aquele pormenor da tira de cabedal no pulso. Alice estava certa. Só achava estranho aquele isolamento. Sim, porque além de ir sozinho, só procurava a biblioteca em horas mortas.
— Vá lá, menino! Tencionas dormir cá? Se quiseres, podes requisitar o livro e acabar de lê-lo em casa.
Que não, mas “muito obrigado” e que desculpasse aquele esquecimento... havia livros assim! Não saiu sem repetir novamente o pedido de desculpas. A um canto, D. Alda assistia interessada àquelas cortesias algo despropositadas num rapaz de estranha aparência.
— Delicado este rapaz!
— É verdade, D. Alda — dizia a Alice encaminhando-se para a porta de saco na mão. — Não é todos os dias que se encontra um rapaz com aquelas maneiras. Mas reparou naquelas botarras?! Parecem do exército! Bem... ainda demora?
— Vou só dar uma espreitadela, não vá ficar alguma coisa ligada. Vá andando, Alice, saio já atrás de si.
Diligente, a bibliotecária confirmou as luzes e as janelas e, quando passava pelo Cantinho da Leitura, reparou numa folha solta sobre a carpete. Impressa, páginas 31/32 de qualquer livro... mas de qual? Virou-a dos dois lados, mas não havia indicação de título ou autor. Soltou-se, concluiu a bibliotecária com a folha na mão; os livros de hoje já não são o que eram, ou então o defeito era das mãos dos leitores, bem mais bruscas hoje em dia. Optimista, preferiu pensar que o problema era da segurança das lombadas e já congeminava uma forma de tirar partido pedagógico da situação.
Simples: promovia um concurso para descobrir o pé da Cinderela. Sim, porque em 22 000 volumes, era difícil descobrir qual o livro que não tinha as páginas 31/32 e, quem quer que tenha sido, havia folheado nesse mesmo dia o exemplar. Apelaria, assim, à descoberta e com direito a prémio. Com este novo projecto na cabeça, deixou, finalmente, a biblioteca.
Era Inverno, escurecia mais cedo e a vila enchia-se de luzes. Nas ruas e nas casas. No quarto, José Miguel aguardava que a mãe acabasse o jantar. Tinha, como sempre, programa à noite com os colegas e, apesar de se perder nas horas com os livros, gostava de pontualidade nos encontros com os da sua idade, para depois se perder também nas horas com eles. A mãe bem recomendava “Volta às onze, o máximo”, mas davam muitas vezes as doze badaladas e o José Miguel sem estar em casa. Aos fins-de-semana a situação piorava em pouco. A mãe, habituada até aí a um filho reservado, mas cumpridor e pacato, atribuía às recentes companhias do filho a razão dos seus hábitos nocturnos.
— O Migas mudou muito — era a sua voz a desabafar para o marido — desde que se meteu com aquele grupo do Bairro dos Cabeçudos. Se era calado connosco, mais calado ficou. E a roupa, Chico... só lhe lavo e passo peças pretas! Salvam-se as cuecas no meio daquela rouparia toda. E o cabelo?!... E a linguagem... Por acaso já o ouviste falar ao telefone?! Parece conversa de latrina, quase outra língua!
— São fases, Assunção! — conciliava o marido, sem deixar de olhar para o jornal desportivo. — Mais uns anitos em cima e tudo isso passa. Quando andar na universidade...
— Se não se perder pelo caminho! Eu não o vejo pegar num livro e olha que as notas do 1º período não foram grande coisa!
— Está numa escola nova... e olha que o rapaz lê! Sabes de onde é que o vi hoje sair às seis e tal? Da Biblioteca Municipal! Isso mesmo! O teu rapaz também anda metido com livros. Se calhar, agora no quarto, está de volta deles!
— Ou a olhar para o relógio à espera da hora de jantar! Ele quer é sair! — arriscava, não convencida, a D. Assunção.
Enganavam-se os dois. José apareceu nesse momento à entrada da cozinha, reclamando pela escova de engraxar calçado. É que estivera de volta das botas e gostava delas a brilhar.
— Deves querê-las que nem espelhos para penteares essa madeixa! A escova está ali junto do tanque — diz a mãe, tirando as últimas batatas da fritadeira.
Que deixasse o cabelo e as botas... e acabasse antes o jantar, que a fome apertava.
— E os amigos também!... ‘Tá bem, vamos lá para a mesa!
Jantaram calados e José saiu. Lustroso, madeixa a preceito, fez-se a caminho da casa do Sampaio. Dali partiram para o café da Estrelinha onde o grupo já devia estar. A música estava ligeira nessa noite, ainda menina, e, entre cigarros e cervejas, foram desfiando as aventuras da tarde. O Teixeira tinha estado a curtir umas músicas do último CD dos Nirvana... com a miúda, claro!... Onde?! Onde havia de ser?!! Na sala de estar dos Teixeiras, óbvio! O Alferes tinha andado de volta do trabalho de História que já deveria ter sido entregue há duas semanas. Que seca!... Limitou-se a copiar umas coisas de uma enciclopédia... e nem capa punha... o Macaco-pré-histórico não merecia mais! O Sampaio tinha andado a experimentar a Scooter da Nelas e tinha dado cá um speed na Av. 25 de Abril! As miúdas não sabiam apert ar no acelerador!
— E o Zé Botarras? A cismar com a Rosa, hem?!
Que nem pensasse nisso, toda a tardinha em conversa com uns tipos porreiraços que não via desde o ciclo.
— Quem? Chuta daí, ó Zé! — insistiram os colegas. Limitou-se a responder que não conheciam. Da ida à biblioteca nem uma palavra. O que diriam dele! Há coisas que não se podem dizer em nenhum sítio. Mesmo assim, com todas as suas cautelas, já tinham descoberto a sua paixoneta pela Rosa. Só porque um dia o apanharam a desenhar um botão. Que coisa mais careta! P’ró que lhe havia de dar: desenhar e pintar uma rosa! E tinha ficado linda! Fraquezas perigosas para um adolescente de 15 anos... de negro vestido. O que não diriam eles se soubessem que costumava gastar três ou quatro horas por semana na biblioteca?! Um perfeito betinho! Ainda por cima a ler letra miúda. Ainda se fossem revistas musicais ou Banda Desenhada! Estava decidido... nem uma palavra para eles. Até porque se divertia à brava com esta trupe do Bairro dos Cabeçudos. Fixes! Loucos a valer!
No outro dia, à mesma hora, lá estava o José Miguel na biblioteca. Precisava de ler o último livro de Tom Sharpe e tinha mais descanso ali no fim da tarde, sem os amigos ou a mãe por perto. Depois... andar com um livro debaixo do braço não fazia o seu estilo e sabe-se lá o que a Rosinha diria se o encontrasse.
— Com que então a acabar de ler o livrinho! — pergunta-lhe a Alice sorridente, reconhecendo o cliente atrasado do dia anterior. — Olha, dá uma vista de olhos ao anúncio do concurso que está no átrio. Pode ser que ganhes, já que és um leitor assíduo!
José Miguel desejava que esta última frase tivesse sido mais discreta. Sabe-se lá quem poderia tê-la ouvido na sala. E estava na sua hora de clandestinidade. Concurso... foi ver o que dizia.

PÁGINA SOLTA
À PROCURA DO SEU LIVRO

Queres ajudar esta página? Soltou-se do seu livro e foi encontrada desolada e órfã no chão da biblioteca. Se fores um leitor atento, podes dar-lhe uma ajudinha!

COMO?

Talvez pelo tipo de linguagem
Talvez por referências dispersas do texto

Vai eliminando hipóteses:

§ ficção ou ensaio?
§ nacional ou estrangeiro?
§ recente ou antigo?

Se descobrires ou quiseres dar um palpite, escreve num comentário.

Formou-se uma roda de jovens em torno do cartaz e, pelas expressões, ninguém parecia reconhecer a página. Apenas José Miguel examinava com atenção o texto, detendo-se nalguns nomes que lhe pareciam familiares. Mas sentia-se comprometido naquele grupo e afastou-se. Pediu à funcionária que lhe facultasse uma fotocópia da página e foi para o lugar. D. Alda tinha pensado em tudo – havia um pequeno número de cópias para o concorrente mais reflexivo.
O Wilt de Tom Sharpe ficava para mais tarde. Tinha de resolver primeiro este enigma. Pegou na folha, puxou de um lápis e começou a sublinhar palavras; de vez em quando levantava a cabeça, voltava a página, lia do outro lado, mordia na ponta do lápis e, numa mordidela mais profunda, a cara iluminou-se-lhe de revelação. Teria descoberto? Levantou-se, dirigiu-se às estantes de literatura estrangeira e começou a varrer com os olhos os títulos. Parecia ter encontrado a prateleira certa e, com o auxílio do dedo, separava os livros um a um. Tirou três: o primeiro tinha as páginas 31/32, o segundo também e o terceiro... lá estava! Sem a dita folha. O sapatinho de cristal tinha acabado de entrar no pé! Satisfeito, dirigiu-se ao gabinete da bibliotecária e bateu delicadamente à porta.
À sua frente, D. Alda tinha o jovem simpático do dia anterior. Com o livro na mão.
— Parece que descobri! — limitou-se a dizer o rapaz.
— Bravo!... Os marginais de S. E. Hilton. Já tinhas lido?
— Há uns tempos atrás, li os dois livros da autora publicados em português: Tex e Juventude inquieta. Este ainda não. Foi através de algumas palavras das páginas que cheguei lá.
— Explica-me como foi...!!! — D. Alda esperava que ele se identificasse.
— José, José Miguel. Repare aqui na página 31 — e mostrou-lhe na página rabiscada o fio da sua dedução. — ‘Tá a ver aqui estas palavras inglesas... Cherry... Ponyboy... só podia ser ficção inglesa... ou então americana! Mais cá em baixo... aqui está rodeo, era americana! Depois o estilo de escrita é vivo, cheio de diálogos e coisas assim... tinha de ser livro recente e para malta, digo, gente da minha idade. Depois fala-se aqui de seitas de jovens que lutavam nas ruas e isso fez-me lembrar um filme do... Coppola... Francis Ford Coppola, que vi recentemente na televisão, por sinal baseado neste livro. Foi nessa altura que fui à estante e não foi difícil dar com ele... precisamente aquele que não tinha lido!
— Brilhante, José Miguel! Amanhã podes passar por cá para receberes o prémio. Um livro, se não te importas.
Não se importava nada. Agradecia-lhe muito. Foi satisfeito para o lugar e mais satisfeito ficou quando se encaminhava para casa, meia hora mais tarde. É que tinha visto a Rosa e tinham-se cumprimentado. Ela trazia o cabelo apanhado, como ele gostava, e a rapariga prometera-lha um poster dos AC/DC de que ele não gostava, mas ela pensava que ele gostava. E ele precisava de gostar do que ela e os amigos gostavam para todos gostarem dele. E ele gostava de livros (alguns, claro!), e os outros... não!
Este conflito de gostos dilacerava-lhe a cabeça. Quem era ele, afinal? O que os outros esperavam dele ou o que ele próprio sentia? Será que podia continuar a ser dois ao mesmo tempo? Tinha mesmo de se esconder dos outros para ler? Ser... parecer... “to be or not to be”... chegado a esta essência filosófica, começou a sentir-se mais forte, com uma personalidade para afirmar. A começar por casa. Nessa noite ao jantar, afirmou-se na carne estufada. Estava rija e demasiado apaladada. Não comia!
Quando se encaminhava mais tarde para casa do Sampaio, afirmou-se numa pedra e chutou. Azar. Não lhe calculou bem o tamanho e, apesar das suas botarras, magoou-se no dedo grande. Sentou-se num banco ali perto para amansar as dores e repensar as suas afirmações.
Ele queria ser ele próprio mas... a carne assada da mãe não tinha culpa e muito menos a pedra. Onde estava, afinal, o seu problema? Olhou para as horas. O amigo não gostava de esperar. Juntou-se ao Sampaio, ao Teixeira e ao Alferes e a todos os outros que apareceram no Café Estrelinha. As conversas do costume, que são, afinal, as da sua idade. Para quê debates?!
— Agora vamos todos p’rà garagem do Serafim! Um assalto! O gajo tem lá música da pesada.
E foram e José Miguel gostou. A sua mãe um pouco menos, porque esteve acordada até às duas da manhã. No outro dia teve aulas até às 17.30. Ainda passaria pela biblioteca para ver o livro que a D. Alda lhe reservava de prémio. Desculpou-se como pôde com os amigos e apressou o passo. Junto ao largo que dá acesso à biblioteca, avistou a Rosa que vinha na mesma direcção. Parou, voltou para trás e... uf!... perdeu-a de vista. Que encontro mais inconveniente!
Subiu, enfim, as escadas e dirigiu-se para o gabinete da bibliotecária. Lá estava sobre a secretária o embrulho da sua prenda. Os marginais, que tinha descoberto no dia anterior.
— Como foi o único da autora que ainda não leste, achei que irias gostar — diz-lhe ela.
E tinha mesmo gostado. Marginais. Marginais como ele, afinal, que fazia dos livros um ghetto clandestino. Tinha de... Alto aí! Através do separador envidraçado do gabinete, avistou um rabicho conhecido na sala de leitura. Era a Rosa. A Rosa na biblioteca. José Miguel nem queria acreditar. Saiu do seu ghetto e dirigiu-se ao lugar da rapariga. Sentou-se à sua frente. Ela olhou-o espantada:
— Tu por aqui?! Olha que não te trouxe o poster! Não fazia a mínima ideia de te encontrar aqui!
— Esquece o poster. Afinal, já não o quero. Já não cabem nas paredes e preciso até de limpar o quarto. Ainda demoras aqui?
— Um bocadito. Preciso de procurar um livro na estante para levar para casa — respondeu a Rosa sem entender muito bem aquela do poster.
— Se quiseres este, empresto-to. Acabo de o receber agora como prémio. Foi a bibliotecária que mo deu agora mesmo.
— Mas vens muito aqui? — Rosa cada vez o entendia menos.
— Sim, sim... — e dava pormenores. — Olha, no outro dia, até me esqueci das horas e foi a funcionária que...
Pelo caminho para casa, José Miguel foi-lhe revelando a sua faceta escondida. O seu outro lado secreto, e Rosa até achava aquilo engraçado. Despediram-se com um aperto de mãos mais prolongado. Ao jantar mastigou bem a carne, desta vez sim, um pouco rija! A caminho da casa do Sampaio, já não chutou em pedras. É que tinha acabado de engraxar as botas. O Zé Botarras!
Natália Caseiro
Os devoradores de livros
Leiria, Editorial Diferença, 1999
(adaptação)

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4 de janeiro de 2011

Bolo Rei

Todos os anos, quando os velhos Reis Magos acabam de atravessar pequena estrada de areia que se esboça entre caminhos de musgo e lagos feitos de bocados de espelho partido; quando a estrela de prata que se suspende entre os dois exemplares de “A Paleta e o Mundo” de Mário Dionísio se recolhe para regressar à velha caixa de papelão, com trinta anos de viagens, cheia de bocados de jornal amachucados que ainda guardam notícias de dias que já foram e onde se embrulham os cordeirinhos, os pastores, as oferendas várias que o Menino Jesus recebeu, apesar de já lhe faltar a mãozinha direita que alguém partiu em excesso de limpeza; todos os anos, dizia, recordo a história que o Fernando Midões me contou, certa tarde em que misturámos poemas com lágrimas.
De calças à golfe, lacinho à Baptista Bastos, fato de ver a Deus e celebrar o Dia de Reis, Fernando foi com a mãe jantar a casa das senhoras, gente de talher de prata, criadas de avental branco e crista engomada, cheias de silêncios e reverências.
Com olhos de amora madura, esse sorriso que ainda hoje conserva, sempre molhado de uma melancolia que tem de adivinhar-se mais do que ver-se, Fernando entrou na sala de jantar das anfitriãs, cujas portas só o espírito natalício abria, raros que eram os gestos de caridade e partilha. Assim se explicava a presença do rapazinho e sua mãe, viúva recente e que ali trabalhava de manhã à noite, para que a vida se assemelhasse ao que já fora.
Servidos os manjares da época: a canja onde as bolhas de gordura lembravam pequenos sóis fumegantes, o leitão de maçã vermelha na boca que olhava Fernando em gritos de sufoco que só ele, poeta em germinação, conseguia ouvir; os fritos vários que nas travessas exibiam a abastança, chegou finalmente e foi colocado em lugar de honra, no centro da mesa, ladeado por dois castiçais onde as velas vermelhas ardiam, o bolo-rei, roda magnífica de cores, frutas, pinhões, bocados de açúcar que lembravam neve e cujo esplendor ofuscava o dourado das filhós, os reflexos das garrafas de licor, o brilho dos copos de cristal.
Fernando, pequenino, queixo tocando a toalha de renda, olhava aqueles mistérios de cor e perfume e falava, falava, dizia coisas tão a propósito que as senhoras, enlevadas, não se cansavam de sorrir e felicitar a mãe que tal filho tinha. Então, a mais velha, cabeção de renda e camafeu de marfim a fechar as golas, pega na faca de prata e com solenidade, meticulosamente, parte o bolo. A criada ajuda à distribuição nos pratinhos de sobremesa.
— Agora, não se esqueçam: aquele ou aquela a quem calhar a fava terá de pagar o bolo-rei no ano que vem!
E entre comentários de enlevo, gula, elogios à tessitura e ponto ideal do levedo da massa, à abundância das frutas, à maciez e agrado do paladar, se comeu a sobremesa.
A prenda calhou à criada.
— Que sorte! Mostre lá!
— Olhe que medalha tão bonita! Parece uma libra de verdade. Até pode usar no fio que ninguém diz que não é autêntica.
— E tu, Fernandinho, não acabas de comer a tua fatia de bolo?
— Come que está bom e fofinho!
Fernando, subitamente silencioso, abanava a cabeça em negativas.
— Então, filho! Não sabes falar? Responde às senhoras: queres mais um bocadinho de bolo?
— Ao menos acaba esse!
— Está cansado, coitadinho! Deixe-o lá.
Fernando baixava a cabeça, cabelos lisos na testa. A noite ia adiantada. A Miguel Bombarda, onde moravam, ainda ficava longe. Sim, minha senhora, amanhã às oito cá estarei, se Deus quiser, para cortar o vestido novo e pôr em prova a saia do “tailleur”. Foi uma noite muito bonita. Muito obrigada! Fernando dá um beijo às senhoras e agradece. Diz obrigado, Fernando!
Fernando deu o beijo às senhoras, esticou a cara, pôs-se em bicos dos pés, encheu os olhos de gratidão.
— Diz obrigado, filho! Mas o que te aconteceu?
— Deixe-o lá, coitadinho, perdeu a língua. É o sono, não é?
Descem o elevador, abrem a porta da rua. A mãe, agastada, ralha:
— Mas que vergonha! Umas senhoras tão boas, recebem-nos como família, estavas a portar-te tão bem e agora isto, nem uma palavra de agradecimento, nem boa noite, é esta a educação que te tenho dado? Se o teu pai fosse vivo…
Então, já na rua, o frio de Janeiro a gelar-lhe as mãos e o nariz, a névoa a transfigurar a rua e as pessoas, Fernando, finalmente, abre a boca e lá do fundo deixa voar o mistério da sua inesperada mudez:
— É que me calhou a fava, mãezinha. Eu sei que tu não tens dinheiro para, no ano que vem, comprares um bolo-rei igual àquele.
E, na palma da mão pequenina, cuspiu a fava que ali nascia, quente ainda, do esconderijo em que estivera.
E ainda hoje, nas horas mais dolorosas, quando se esquece de mastigar a comida que arrefece no tabuleiro da cantina e prefere viajar no país da infância, Fernando Midões, meu irmão mais antigo, sente a ternura solidária do abraço e o húmido das lágrimas com que a mãe o aconchegou junto de si.
Sem palavras, mãe.
Sem palavras.


Maria Rosa Colaço
Viagem com Homem dentro (adaptação)
Leiria, Editorial Diferença, 1998


via A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias
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28 de dezembro de 2010

22 de novembro de 2010

A História dos brincos de penas (final)

…continuação

Finalmente, sentiam-se preparados para dar o seu sábio parecer, muito pausadamente, ao Grande Chefe Pé-de-galo, que aguardava sentado junto deles.
Foi Pé-Sentado quem falou:
— Após cuidadoso exame às penas trazidas pelo pequeno Pé-de-atleta, concluímos que não são penas de ave.
O Grande Chefe mostrou-se surpreendido e perguntou, atrás de uma densa nuvem de fumo:
— Não são penas de ave?!
E o que são, então?
Desta feita, foi a voz do velho índio Pé-de-guerra que soou, muito misteriosa:
— São penas... de gente.
Quando a notícia foi dada ao pequeno índio Pé-de-atleta, duas luas e meia mais tarde, ele pôs-se a pensar e concluiu que a pessoa da tribo que parecia ter mais penas era eu mesma, índia Pé-Chato, que estou a contar-te como tudo se passou.
Na verdade, não pude estar presente na reunião em volta da fogueira onde as penas foram mostradas a toda a tribo. Fiquei de cama com febre e com uma pena terrível de não ir.
O pequeno índio veio, então, ter comigo ao pé do riacho e foi directo ao assunto, mostrando-me as penas:
— São tuas?
Eu não podia negar, eram mesmo minhas, embora me custasse acreditar que estavam ali, à frente do meu nariz. Então, abanando a cabeça em sinal afirmativo, respondi-lhe «lá» com o polegar esticado, como vi uma vez num filme de outra civilização.
Entendi que devia explicar ao pequeno índio o que tinha acontecido.
Peguei nas penas e comecei a contar-lhe:
— Trata-se de penas da alma. Sabes como é, quando se fica muito triste ou com muitas saudades, nascem-nos penas como estas, no fundo da alma.
— Estás a dizer que estas penas saíram mesmo da tua alma?! — admirou-se Pé-de-atleta.
—É como dizes — confirmei.
— Conta mais!— pediu ele.
— Bem, normalmente, as penas ficam cá dentro de nós. Só saem se alguém nos ajudar a deitá-las para fora, o que nem sempre é fácil — disse eu.
— E o que foi que tu fizeste? — tornou o pequeno índio.
— Falei com um dos mais velhos da nossa tribo que me disse assim: «As penas só te deixarão quando não tiveres pena de as deixar ir embora.» Na altura, não percebi bem o que ele me disse, mas resolvi afastar-me e ir até à montanha onde os veados costumam passear. Lá, pus-me a pensar, a pensar... Subi à rocha que está mesmo no cimo e dei um suspiro muito muito fundo até o pensamento ficar quase vazio.
Depois, deixei o ar ainda fresco da manhã entrar nos meus pulmões e, logo em seguida, as minhas penas começaram a sair e a subir pelo ar, muito devagarinho.
— Fala-me agora destas penas — pediu Pé-de-atleta.
Respirei fundo e fiquei a pensar se deveria ou não contar-lhe.
Depois, achei que sim, porque tinha sido ele a encontrar as minhas penas, que, afinal, tinham acabado por cair mesmo à frente do seu nariz arrebitado.
— Estas são todas penas de saudades, por isso são bonitas — disse-lhe. Mas achei melhor explicar: — Saudades das pessoas que já não vivem comigo porque partiram para o céu, e saudades também da minha irmã Pé-de-vento, que não vejo há mais de cem luas.
— Estás a falar daquela que está na grande cidade, a estudar para ficar a saber curar dores de barriga, constipações e comichões?
— Essa mesma, meu amigo. Ela está onde tem de estar. E eu fiquei com saudades, mas estou feliz porque sei que voltarei a vê-la! Somos amigas e, em muitas coisas, semelhantes. Havemos de reencontrar-nos. Agora, tenho essa certeza. Só ainda não sei o que vou fazer com estas penas... Não me passou pela cabeça voltar a vê-las.
Pensei que me tinha mesmo visto livre delas...
— Isso é fácil! Faz alguma coisa útil — sugeriu Pé-de-atleta, muito despachado.
— O quê, por exemplo?
Então, Pé-de-atleta deu-me uma resposta que, na altura, me pareceu meio disparatada:
— Olha, faz uns brincos!
— Essa ideia não tem pés nem cabeça! — refilei.
— As ideias não precisam de ter pés nem cabeça. Basta que sejam boas!
Franzi o sobrolho e murmurei longamente: «Huuuummm...» como ouço fazer aos anciãos da tribo quando ficam a pensar numa coisa importante.
Na verdade, a ideia de Pé-de-atleta, o pequeno índio, era boa. Só precisava de pô-la em prática, mas como?! Eu não sabia fazer brincos, nem pulseiras, nem sequer um anel de latão para o dedo mindinho!
Lembrei-me, então, de levar as minhas penas ao artesão da nossa tribo, o famoso índio Pé-Dali. Ele era o fabricante de tapetes de sela e o único artista que eu julgava capaz de transformar penas em qualquer coisa bonita para se usar.
Sem demora, fui ter com o artista.
Ele estava no seu tipi a fazer o desenho de um cavalo e quase nem deu pela minha presença. Entreguei-lhe as penas e pedi-lhe que fizesse com elas um par de brincos — os mais bonitos que ele conseguisse
fazer. Pedi-lhe também que não se demorasse, de modo a estarem prontos para o aniversário de Pé-de-vento, no segundo dia do sexto mês.
Porém, Pé-Dali não se despachou... Os artistas são imprevisíveis, sabes como é. Só agora tenho os brincos prontos. À espera de que Pé-de-vento regresse para lhos dar. Ela vai gostar. Ficaram lindos!
E pronto. A história dos brincos de penas está a acabar...
Todas as histórias têm um fim, menos a história da nossa vida — essa está escrita num livro muito grande (o maior do Universo), que só existe na biblioteca que há no Céu. Cá na Terra, ninguém teria tempo de o ler. Tu e eu também aparecemos lá, no grande livro. E, claro, aparecem também todas as outras pessoas do mundo — índias ou não. Porém, só Deus conhece esse livro de cor e sem precisar de o ler, porque sabe tudo.
Mas, antes de terminar, ainda queria dar-te a conhecer a conclusão a que cheguei: é que, afinal, sempre se pode fazer alguma coisa útil com as nossas penas quando elas não querem ir-se embora (porque há penas assim, um bocado teimosas, que querem ficar cá dentro a causar-nos tristeza). O meu tetravô Pé-de-nabo, que era um grande filósofo (que é como quem diz, gostava de pensar nas horas livres), dizia assim: «Se a vida te dá um limão azedo, junta-lhe água e açúcar e tens uma limonada!»
Boa ideia, não é?

FINAL

Maria Teresa Maia Gonzalez
A História dos brincos de penas
Lisboa, Editorial Presença, 2006

via A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias

3 de novembro de 2010

Ninho de poetas

Paz Condicionada, Pobreza Descontrolada

Paz, o que é a paz?
Será que realmente existe ou apenas finge que se faz?
Já se viu que a situaçao é de facto inacreditável
Mas será que a solução é realmente incontestável?
É bem visivel a crueldade presente na sociedade
Fala-se em democracia, mas a ditadura é que controla a verdade
Nao vai ser um acto único a alterar o mundo
Nao será facil mudar ideias neste meio moribundo
Cabe à geração actual controlar a situação
Pegá-la com corpo e alma, melhorá-la com o coração
Tentar ver a posição dos mais necessitados
Fornecer algum apoio e melhorar os seus cuidados
Compreender o sofrimento de dormir numa cama de cartão
À chuva e à mercê do vazio da solidão
Sonhar em céu aberto, sem uma parede protectora
Situação na qual a tristeza sairá sempre vencedora
Porque se desperdiçam tantos fundos em guerras e ilusões?
E nao se faculta uma chance aos que vivem por tostões?
Batalhas sem propósito, crises a nível mundial
Em que se luta para defender apenas o bem capital
Onde se aplica o dinheiro do suposto apoio social?
Onde está, que nao se vê, a promessa ancestral?
De dar à paz uma vitória por tanto tempo merecida
E levar um sorriso a todo aquele que o necessita
Onde estamos todos nós nas mais árduas ocasiões?
Será que fazemos o impossível para findar complicações?
Consciência eu sei que tenho
E Vontade em tudo empenho
A esperança no entanto partiu
Quando a vida me traiu
Portanto fico e não desisto, embora me encontre triste
Com coragem vou em frente numa esperança que persiste.

Contra obstáculos fico firme, exerço uma força voraz
Com uma certa espectativa de ainda em vida ver a Paz!



Elisabete Andrade, 12ºB

28 de outubro de 2010

A História dos brincos de penas (2ª parte)

…continuação

Porém, o índio Pé-de-dança, o actual mestre-de-cerimónias da tribo, também quis dar um ar da sua graça. De facto, parecia-lhe mal não dar a sua opinião sobre o que quer que fosse, mesmo que não tivesse certezas. Afinal, ele era o mestre-de-cerimónias, com o curso completo, e não um ignorante qualquer!
Bamboleando-se, Pé-de-dança opinou na sua voz de falsete:
— Pois para mim são penas de pavão.
— Pavão?! — insurgiu-se o índio Pé-Coxinho, que até se levantou, procurando a custo equilibrar-se. E repetiu, incrédulo: — Pavão?!
Pé-Coxinho tinha ficado com o pé esquerdo sob a roda de uma carroça, quando era pequeno. Desde então, não voltara a pôr o pé em terra e era campeão em muitas gincanas que a tribo organizava na Primavera, convidando outras tribos a participar — uma espécie de olimpíadas cem por cento índias, com modalidades absolutamente únicas e extraordinárias, nas quais o primeiro prémio era a cobiçada Seta de Ouro. Pé-na-tábua, o condutor mais rápido do Oeste, levantou o braço, pedindo para falar.
Os outros calaram-se e ouviram-no afirmar:
— Concordo com Pé-Coxinho. Não podem ser penas de pavão. Eu acho que são penas de pombo. Já vi umas assim numa revista, numa das viagens que fiz. Tenho praticamente a certeza de que são de pombo, sim.
Ninguém partilhou da opinião de Pé-na-tábua, o condutor de carroça mais veloz e experiente da tribo Sempre-em-pé, que nunca tinha atropelado nem sequer um escorpião.
Depois de a opinião de Pé-na-tábua ser rejeitada por maioria, levantou-se a índia Pé-Firme, mulher do Chefe. Pé-Firme era rechonchuda e forte como um guerreiro, sendo igualmente destemida. Era perita em luta corpo a corpo e nunca virava costas a uma
briga. Usava sempre ao pescoço um colar de dentes de tubarão que o marido comprara a um vendedor ambulante que por ali passara, vindo de um país longínquo.
Ora, a mulher do Chefe não perdia uma oportunidade para se fazer ouvir nas reuniões da tribo. Era, sem dúvida, uma mulher sem papas na língua, que é como quem diz, capaz de dizer tudo o que lhe vinha à cabeça, além de ter uma voz parecida com um trovão dos maiores. De resto, alguns dos homens da tribo tinham a voz mais fina do que a dela,
embora não o quisessem admitir.
Pé-Firme falou:
— Ninguém aqui se entende! Ninguém sabe o que diz! Então não se está mesmo a ver que as penas são de águia?! De que outra ave poderiam ser, se são as águias que mais cruzam os céus por cima das nossas cabeças?
— Não posso concordar com Pé-Firme — interveio Pé-de-chumbo, afastando da testa uma madeixa de cabelo que o incomodava.
Pé-de-chumbo era o pior dançarino de toda a tribo e, certamente, das tribos mais próximas, mas não desistia de tentar, convidando para dançar todas as mulheres que conhecia — desde as mais novas e bonitas às mais velhas e enrugadas.
A mulher do Chefe olhou-o com cara séria, mas ele não se intimidou e explicou:
— As penas de águia são maiores do que aquelas que o pequeno Pé-de-atleta trouxe consigo. Para mim, são penas de condor.
— Com dor fiquei eu depois de dançar contigo — atalhou a índia Sem-Pé, que levara uma pisadela terrível do índio Pé-de-chumbo, numa festa para comemorar uma boa chuvada que caíra do céu para o bem de todos, depois de uma seca prolongada.
Sem-Pé era muito baixa e refilona, falando sempre com o dedo indicador bem espetado no ar. Não suportava que alguém lhe pisasse os calos (que lá eram muitos). Por esta razão, andava sempre de botas, mesmo no pino do Verão.
Chegou então, muito atrasado, Pé-ante-pé, o índio mais preguiçoso da tribo, que se deixara dormir.
Estava realmente embaraçado e sentou-se em silêncio. Quis passar despercebido, mas o Chefe perguntou-lhe o que pensava das penas que Pé-de-atleta tinha na mão.
Depois de olhar para as penas, Pé-ante-pé lá se manifestou:
— São de ganso. É isso mesmo: são penas de ganso-selvagem.
— Ganso-selvagem? Que ideia! Parece que nunca viram um ganso-selvagem! — indignou-se Pé-na-argola, que sonhava ser juiz, mas raramente lhe pediam a opinião.
Depois, ao ver que todos os olhares estavam postos em si, empertigou-se e ajeitou o colar de ossos de galinha que pertencera ao seu pai.
Por fim, tossicou e disse de sua justiça, alto e bom som, em tom quase solene:
— As penas que o pequeno Pé-de-atleta encontrou só podem ser de uma ave: a perdiz.
— Peço a palavra — disse o índio Pé-Sujo, levantando-se. Em seu redor, os companheiros fizeram caretas que nem se deram ao trabalho de disfarçar.
Na realidade, Pé-Sujo dormia sempre ao relento e odiava tomar banho, só o fazendo no dia do aniversário do Chefe. As suas roupas também não eram lavadas há muito tempo e estavam cheias de nódoas de toda a espécie. Por causa disto, ouvia insultos e protestos todos os dias, de mulheres e homens, jovens e crianças. Porém, ninguém conseguia arrastá-lo até à beira do rio para o fazer mergulhar na água ou, pelo menos, lavar os pés.
— Quanto a mim, são penas de avestruz — disse Pé-Sujo, que nunca tinha visto aquela ave, mas quis meter a sua colherada.
— Avestruz era a tua avó — gritou-lhe o índio Pé-Leve, campeão de corrida com obstáculos, que usava sempre ao peito o colar com a medalha que ganhara na última competição contra as tribos vizinhas dos Cabeças-Duras, Mãos-Largas e Narizes-Empinados.
Pé-Leve era também quem mais embirrava com Pé-Sujo, passando a vida a chamar-lhe a atenção e a mandá-lo tomar banho.
Por fim, acrescentou, na sua voz de cana rachada:
— Vê-se logo que são penas de gaivota.
— Uma gaivota deves ser tu — comentou o índio Pé-em-riste, com voz de poucos amigos, levantando e abanando o pé onde trazia uma colecção de pulseiras coloridas compradas numa feira muito conhecida.
Depois, continuou: — Desde quando é que há gaivotas no céu da nossa tribo, que fica a léguas do mar? Não podem ser penas de gaivota!
A não ser que alguma se tenha perdido do bando e tenha voado até aqui, atraída pelo perfume do Pé-Sujo...
A discussão estava ao rubro. A confusão era mais que muita. Todos gesticulavam e abanavam as cabeças. Uma criança de colo acordou e desatou num berreiro ensurdecedor. Os cavalos da tribo relincharam, agitados.
O pequeno índio achador de penas estava decepcionado. Não conseguia descobrir a quem pertenciam, afinal, aquelas penas que tinham descido do céu mesmo à frente do seu nariz. Ninguém parecia saber, de facto, de onde tinham surgido as penas.
A certa altura, o Grande Chefe Pé-de-galo chamou os seus três conselheiros, todos de cabelos brancos como a neve: Pé-prá-cova (que tinha 90 anos), um seu companheiro de muitas lutas chamado Pé-de-guerra (que já fizera 98 primaveras) e, finalmente, Pé-Sentado (o mais velho de todos, com 103 anos de vida), que sofria de joanetes e só por essa razão raramente saía do seu tipi.
O Grande Chefe quis saber a opinião dos mais velhos e pediu-lhes que, quando tivessem novidades, o avisassem.
Por fim, Pé-de-galo deu por encerrada a reunião, mandando que lhe trouxessem o cachimbo da paz para que ninguém saísse dali zangado.
Então, antes de se retirar, quis que fosse servido um chá de ervas calmantes, para todos irem dormir tranquilamente, ao som dos uivos dos lobos, já que era noite de lua cheia.
Depois de muito pensarem (demoraram o tempo que a lua levou a mudar três vezes de fase), os conselheiros reunidos no tipi do Chefe passaram o cachimbo de mão em mão entre os três, enchendo a tenda de fumaça.
Então, lentamente, abanaram as cabeças para cima e para baixo e cantaram baixinho e muito devagar uma canção que tinham aprendido na infância, Atirei o pau ao coiote.
…continua

via A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias
http://es@contadoresdehistorias.com
Nota: A 1ºparte desta história :

25 de setembro de 2010

Escuta as vozes da terra

Durante a infância, o meu avô era o meu melhor amigo. Quando estávamos juntos, tudo me parecia perfeito.
Gostávamos ambos de passear pelos bosques. Nunca íamos muito longe, nem andávamos muito depressa. Escolhíamos caminhos sinuosos. Enquanto caminhávamos, eu fazia imensas perguntas:
― Avô, porque é…?
― O que se passaria se…?
― Será que às vezes…?
Um dia, perguntei:
― Avô, o que é uma oração?
O meu avô ficou em silêncio durante muito tempo. Quando chegámos junto das árvores mais altas da floresta, respondeu-me com uma pergunta:
― Alguma vez ouviste o murmúrio das árvores?
Pus-me à escuta, atento, mas foi em vão.
― Vê como as árvores sobem até ao céu. Tentam subir sempre mais. Querem chegar às nuvens, ao sol, à lua e às estrelas. Procuram elevar-se até ao céu.
Pensei nas árvores, procurei ouvi-las. Enquanto reflectia, sentei-me numa rocha velha, coberta de musgo. O meu avô explicou:
― As rochas e as montanhas também falam connosco. A sua calma e o seu silêncio inspiram-nos tranquilidade.
Depois de ter reflectido durante bastante tempo, peguei numa pedra e coloquei-a no meu bolso. Caminhámos um pouco mais, até junto de um ribeiro. A água borbulhava, cintilava, e viam-se pequenos peixes a nadar.
― Avô, os ribeiros também murmuram?
― Claro. Bem como todos os lagos, rios e cursos de água. Às vezes, correm tranquilamente. Espelham as nuvens, os pássaros, o sol ou as estrelas. Outras vezes, escoam-se em redemoinhos, lançam-se no mar ou evaporam-se no céu. E o ciclo recomeça… Também se riem e divertem com os seus amigos rochedos. Dançam, saltam, tornam a cair…Mas a natureza conhece outras formas de se exprimir. As ervas altas procuram o sol e as flores exalam o seu perfume doce. Quanto ao vento, sussurra, geme, suspira, e sopra-nos as suas palavras. Escuta o canto dos pássaros de manhã cedo, escuta o seu silêncio antes do nascer do sol. Consegues ouvir a melodia do pintarroxo ao cair da tarde? Os animais correm pela floresta, tornam-se reluzentes com a água, escalam montanhas, voam até às nuvens, ou refugiam-se na terra. É assim que todos os seres vivos participam na b eleza do mundo…
Calámo-nos os dois. O meu avô olhava o horizonte e eu reflectia no que ele me tinha dito sobre as rochas, as árvores, a erva, os pássaros e as flores. Acabei por lhe perguntar de que modo rezavam os homens. O meu avô sorriu e passou-me a mão pelos cabelos. Respondeu:
― Tal como a natureza, os homens têm a sua linguagem própria. Podem inclinar-se para cheirar uma flor, ver o sol despontar no horizonte, sentir a terra mover-se docemente, ou saudar o dia que começa. Pode-se passear num bosque coberto de neve num dia de Inverno e ver o próprio sopro confundir-se com o sopro do mundo. A música e a pintura são também formas de expressão, de linguagem…. Às vezes, sentimo-nos tristes, doentes ou isolados. Então, repetimos as palavras que os nossos pais e avós nos legaram. Mas é preciso que cada um encontre as suas próprias palavras. O que é importante é dizer o que verdadeiramente se sente, o que nos vem do coração.
Passado algum tempo, o meu avô disse que eram horas de regressar. Mas eu tinha uma última pergunta:
― Será que há respostas para as nossas orações?
Sorriu.
― Se as escutarmos atentamente, as orações contêm as suas próprias respostas. Nós somos como as árvores, o vento e a água. Não podemos mudar o que nos rodeia, mas podemos mudar-nos a nós mesmos. É evoluindo que transformamos o mundo.
Depois deste passeio, ainda voltámos a passear juntos. De cada vez, tentei escutar as vozes da terra, mas creio que nunca as ouvi. Um dia, o meu avô deixou-nos. Continuei a pensar nele com todas as minhas forças, mas ele não voltou. Não podia voltar. Rezei até mais não poder. Depois, deixei de o fazer. Sem ele, tudo me parecia sombrio. Sentia-me muito só.
Alguns anos mais tarde, durante um passeio, sentei-me debaixo de uma árvore enorme. Os ramos mexiam e as folhas sussurravam. Ouvi o murmúrio de um ribeiro e o canto de um pintarroxo, pendurado numa madressilva. Ouvi também um ligeiro sussurro, misturado com o sopro do vento, com o canto dos pássaros e com o marulho da água.
Tal como o meu avô me ensinara, a terra falava comigo. Então, também eu murmurei, docemente:
― Obrigado pelas árvores grandes e pelas flores, pelos rochedos e pelos pássaros. E, sobretudo… obrigado pelo meu avô!
Foi então que algo aconteceu.
Senti – outra vez – o meu avô perto de mim…
E, pela primeira vez desde há muito tempo, tudo me parecia perfeito.


Douglas Wood
Grandad’s Prayers of the Earth
Paris, Gründ, 2000
(Tradução e adaptação)


via A Equipa Coordenadora do Clube das Histórias
http://es@contadoresdehistorias.com
O Projecto intitulado Clube de Contadores de Histórias, nascido em 2006 na Escola Secundária Daniel Faria – Baltar, tem vindo, ao longo dos anos, a difundir-se de uma forma significativa, não só em Portugal, mas também no Brasil e nos países africanos de expressão portuguesa. O Breves online continuará a publicar as suas Histórias.

23 de abril de 2010

Dia Mundial do Livro II

A Dra. Otília Mesquita, colega aposentada, promoveu a sessão A IMPORTÂNCIA DA LEITURA - OS LIVROS EM POESIA e, uma vez mais, mostrou a sua paixão pela poesia, a dedicação, o empenho e o rigor que continua a imprimir em tudo o que faz.

A declamação de poemas alusivos aos livros e ao prazer de ler, feita por antigos e actuais professores e alunas, constituiu o ponto alto de uma tarde de celebração.


Houve entrega de diplomas e pequenas lembranças a todos os participantes.


E, no final, actuaram o Professor Pedro Ospina e o pequeno e simpático João do Conservatório Regional de Música.