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5 de abril de 2013

Obra Completa de António Vieira

http://agencia.ecclesia.pt/semanario/netimages/revista_pagina/2capa14.jpg 
«Vieira global» é o projeto que, depois de 15 tentativas em 150 anos, publica a Obra completa do padre António Vieira. São 30 livros que até 2014 não querem deixar esquecer o jesuíta que no século XVII sonhou Portugal e a sua relação com a Europa e o mundo e não teve medo de enfrentar a sociedade, a realeza e a Igreja.
José Eduardo Franco, historiador e um dos coordenadores da edição, com Pedro Calafate, aponta a atualidade dos escritos do padre António Vieira que nos dias de hoje não teria medo de ir para a rua cantar a música «Grândola Vila Morena».

A publicação da obra completa do padre António Vieira é apresentada no contexto dos 405 anos de nascimento

(consultado em 04 de abril de 2013)
A professora de Português: Elsa Duarte

30 de janeiro de 2013

28 de janeiro de 2013

"Livros com Biologia" - Dr. Joaquim Nave







No passado dia 23 de janeiro, no âmbito da sessão "Livros Com Biologia Dentro",o Dr.Joaquim Nave, professor de Biologia, apresentou a alguns alunos um livro marcante da sua vida. O livro que nos deu a conhecer foi "O Pecado de Darwin" do nova iorquino John Darnton e, através de um discurso claro e apelativo, o Professor Joaquim Nave partilhou a sua experiência enquanto leitor e motivou-nos para a leitura desta obra cuja ação se desenrola a partir de uma personagem real sobejamente conhecida, Charles Darwin, cientista britânico responsável pela teoria da evolução das espécies que, desde o seu aparecimento, tem feito correr muita tinta.
Com a leitura deste livro, que mistura factos históricos e ficção, podemos descobrir o que levou Darwin a formular a teoria da evolução, porque demorou vinte e dois anos a escrever A Origem das Espécies, que doença misteriosa o debilitou durante anos ou quem era o seu rival secreto.
Uma sugestão irresistível! 

27 de fevereiro de 2012

Honrar a palavra

No negócio de mobílias usadas, não se pode comprar por catálogo, como se faz com as novas. As pessoas aparecem e o comerciante tem de ir às casas vê-las e fazer o seu preço. “Não se pode vender o que não se tem,” costumava dizer o meu pai. Por isso, estas visitas eram de extrema importância para ele.

Quando eu tinha 13 anos, o meu pai ficou sem o gerente da loja, um homem que, com o seu único braço, trabalhava muito mais do que muitas pessoas com os dois. Conseguia, por exemplo, suspender uma cadeira da ponta de uma vara, içá-la no ar e fazê-la deslizar até uns ganchos presos ao teto, bem à vista de todos quantos entravam na loja. Na falta do gerente, o meu pai veio pedir-me ajuda, pedindo-me que ficasse à frente do balcão enquanto ele procedia às visitas do dia, até se encontrar a pessoa certa. A loja tinha dezenas de milhar de objetos. “As pessoas gostam de regatear,” disse-me, “por isso não há preços marcados. Apenas tens de ter alguns pontos de referência.”
Levou-me a dar uma volta pela loja. “Podes vender um pequeno motor por quatro dólares. Por um frigorífico, dependendo do estado em que se encontrar, podes pedir entre trinta e cinco e sessenta dólares. Se tiver congelador, poderás ir até aos oitenta, vá lá, até aos cem dólares, caso esteja em ótimo estado. Se uma junta estiver solta, é para o lixo. Não ligues a riscos ou rachadelas. Os pratos vêm com a mobília e nem sequer os levo em consideração quando lhes atribuo o preço. Poderás vendê-los por um preço simpático, algures entre os cinco e os vinte e cinco cêntimos.”
Todos os dias depois da escola, voava na minha bicicleta até à loja. Um dia, estava eu a escrever o preço de um prato muito bonito numa tirinha de papel quando o meu pai entrou. Tinha pedido um dólar e o comprador não hesitou. Fiquei todo contente. O meu pai viu o que eu estava a fazer, virou-se para o cliente e disse, “Que bela pechincha leva aí! O meu empregado fez-‑lhe o preço e é esse o preço certo.” Mais tarde, perguntei ao meu pai, “Porque é que o pai disse aquilo?”
Tratava-se, pelos vistos, de um prato antigo que valia umas boas centenas de dólares. Fiquei descoroçoado. Tanto que me esforçava por dar o meu melhor. Pelos vistos, em vez de ajudar o meu pai, estava a fazê-lo perder dinheiro.
“Se quisesse, podia ter impedido o negócio,” disse ele. “Estavas a escrever o preço e ainda não tinhas pegado no dinheiro. Além disso, és menor de idade. Só que um judeu honra a sua palavra e a dos seus colaboradores.”
Este incidente haveria de ter uma consequência. Anos mais tarde, a minha mulher e eu tivemos de mandar uma grande quantia de dinheiro para a nossa filha em Israel. Um funcionário do banco aconselhou a minha mulher a enviar o dinheiro através de cheque visado, uma vez que, dessa forma, estaríamos isentos do pagamento de comissões. Quando recebi o extrato bancário, porém, reparei que nos tinha sido debitada uma série de taxas. Decidi, então, ir falar com a gerente do banco e explicar-lhe que um funcionário seu é que nos tinha aconselhado sobre a melhor forma de evitar despesas com o envio do dinheiro. Ouviu-me em silêncio e, no final, disse apenas, “Lamentamos o sucedido, mas acontece que o colega deu uma informação errada.”
Foi então que lhe contei a história do meu pai e de como ele fazia sua a palavra dos seus empregados, honrando-a. Terminei, dizendo, “Isto aconteceu sem que o cliente tivesse sido lesado e tendo o meu pai descoberto o erro antes de a transação ter sido efetuada. Imagine só como ele teria agido se tivesse havido danos! Espero que o meu banco atue no mínimo com a mesma integridade do meu pai.”
Durante todo o tempo em que falei, a gerente não proferiu palavra e assim continuou, enquanto eu aguardava a sua reação. Quando falou, a voz era suave. “O Banco de Comércio Imperial do Canadá não ficará aquém do seu pai,” disse, com toda a dignidade. Prometeu, então, a anulação de todas as taxas indevidamente cobradas.
Enquanto lhe agradecia e me preparava para ir embora, senti-me grato por uma história de integridade ainda ter o poder, nos tempos que correm, de tocar os corações e acordar consciências no mundo impessoal dos negócios.

Rabbi Roy D. Tanenbaum

Jack Canfield, Mark Victor Hansen, Rabbi Dov Peretz Elkins
Chicken Soup for the Jewish Soul
HCIbooks, Deerfield Beach, 1999
(Tradução e adaptação)

13 de janeiro de 2012

Concurso Nacional de Leitura 2011-2012

Alunas da ESCM apuradas para a 2ªfase - Finais Distritais:


3ºCiclo:


Maria Lopes Fael - 8ºA


Mariana Moura Almeida - 9ºA


Madalena Baía - 9ºA



Secundário:


Julie Pais - 12ºA


Mariana Roberto - 12ºA


Beatriz Martins - 12ºA


Parabéns a todas, continuação de boas leituras e uma boa prestação na próxima fase!

10 de junho de 2011

Livro de poemas

SINOPSE: Julguei um dia ser MAIS UM HETERÓNIMO DE FERNANDO PESSOA. Fiz de mim um seu fiel discípulo, imaginando ser uma alma gémea do poeta e desejando seguir as pisadas do Mestre. Loucura? Megalomania? Que seja. Mesmo assim, decidi retirar do meu baú este livro de poemas com a assinatura de Sebastião Saudade, que é o nome deste heterónimo ficcional, esperando ser acolhido por um qualquer leitor benévolo...


António Sebastião Martins Pimenta

2 de abril de 2011

Assim não jogo

Hoje vou falar de futebol. Era uma vez um jogador que se chamava Medo. Um grande jogador! — Vamos jogar contra o Medo — diziam, antes do desafio, os adversários, cheios de medo. Mas, um dia, lesionou-se. — Estamos muito desfalcados — lamentavam-se os companheiros de equipa. — Sem o Medo não é a mesma coisa. Foram buscar o suplente. Por acaso, o rapaz até se chamava Nervos. Era o Zé Nervos, não muito jeitoso a dominar a bola, mas com uma potência no remate de virar os guarda-redes do avesso. Já o primo dele, o Chico Nervos, que também jogava, mas a meio-campo, não havia quem o suplantasse como armador de jogo. — Rapazes, hoje a táctica é toda por conta dos Nervos — anunciava o treinador, nos balneários. — Com os Nervos ao ataque, temos a vitória garantida. E tiveram. Naquele jogo e no outro e nos outros que se seguiram o êxito foi estrondoso. Os adversários levavam abadas de chocar. — Vocês não têm mais irmãos ou primos com queda para o futebol? — perguntava aos dois Nervos o treinador. — Se tiverem, eu contrato-os. Com os Nervos todos do nosso lado, bem controlados por mim, seremos imbatíveis. Por sinal que eles não tinham mais parentes virados para o desporto. Eram os únicos Nervos futebolistas da família. Mas chegavam. — Nervos! Nervos! Nervos! — gritavam os espectadores, nas bancadas. Até parecia que a força dos Nervos se comunicava aos restantes jogadores. Tanto se destacavam os primos que os jornais quase se esqueceram do nome dos outros futebolistas, do treinador e do próprio clube, para apenas designarem a equipa com títulos deste género: avalanche de Nervos, Nervos a mais, ataque de Nervos, com um entusiasmo e um exagero que – brr! – até enervavam. Entretanto, o Medo, aquele jogador que se tinha lesionado no princípio da história, restabeleceu-se. Estava, de novo, pronto para jogar. O treinador fez umas substituições, uns acertos e, sem dispensar os primos Nervos, mandou vir o Medo. — Por este andar, com uma equipa deste nível, vamos ganhar a Taça das Taças das Taças das Taças — dizia o treinador, a esfregar as mãos e a rir-se. Riso de pouca dura. O primeiro jogo com a nova formação foi um desastre. O segundo jogo, uma calamidade. Do terceiro jogo já não posso falar, porque não assisti. Sem, ao menos, um jantar de despedida, os dirigentes do clube puseram-me na rua. Sim, era eu o treinador da equipa, esqueci-me de avisar no princípio. Depois deste desaire, nunca mais voltei a um estádio. Mudei de vida. Empreguei-me a escrever histórias... Mas uma coisa aprendi da minha passagem pelo desporto: com Nervos e Medo juntos, nunca se consegue ganhar.

António Torrado www.historiadodia.pt

30 de dezembro de 2010

25 de novembro de 2010

Dr Eric Mendes - ex-aluno da ESCM


No dia 19 de Novembro o Dr Eric Mendes, lançou na Faculdade de Engenharia da Universidade da Beira Interior (UBI) o seu primeiro livro “Perimetro de Protecção de captação de águas subterrâneas para consumo humano em zonas de montanhas – Caso de estudo da cidade da Covilhã”.
O Dr Eric Mendes completou o 12º ano nesta escola, onde iniciou os seus estudos na área da Geologia seguindo depois para a Universidade de Lisboa onde concluiu o curso de Geologia Aplicada e do Ambiente em 2003. Em 2007 defendeu com sucesso o seu trabalho de mestrado na área de Geotecnia Ambiental. Tem já cerca de 24 artigos científicos, publicados em revistas nacionais e internacionais. Entretanto, entrou num projecto de doutoramento na UBI, do tipo Universidade-Empresa, com uma bolsa de estudos co-financiada pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) e Empresa Beira Vicente. O seu trabalho de doutoramento inclui estudos na zona da Serra da Gardunha, com o objectivo principal de contribuir para uma exploração sustentada da água subterrânea que serve de base a linha de engarrafamento da Água de Nacente Fonte da Fraga.
No livro agora lançado apresenta um caso de estudo da definição do perímetro de protecção de 74 captações de água subterrânea localizadas na Serra da Estrela. Estas captações pertencem à empresa municipal Águas da Covilhã e encontram-se integradas no sistema global de abastecimento público, que serve cojuntamente com o sistema da Barragem da Cova do Viriato, cerca de 30000 habitantes.
Aquelas captações, além de relativa proximidade entre elas são ainda muito singulares em relação ao contexto clássico da optimização de perímetros de protecção. São do tipo minas, drenos, furos semi-horizontais e nascentes, sendo de salientar que estas captações são muito comuns em regiões montanhosas.
Assim, neste trabalho apresenta-se uma metodologia própria que resulta de uma conjugação de quatro métodos ou aspectos: 1) método de Wyssling; 2) aplicação da fórmula expressa no Decreto-Lei nº 382/99 de 22 de Setembro; 3) aspectos geológicos/estruturais e geomorfológicos da envolvente às captações; 4) vulnerabilidade das formações geológicas envolventes às captações.
Esta metodologia poderá ser alargada a outras zonas de montanha sendo de salientar que já foi aplicada a inumeras captações de abastecimento publico de vários municipios portugueses.


Professora Regina Almeida

20 de novembro de 2010

Feira do Livro na Biblioteca da Escola

Até dia 29 de Novembro decorre, na Biblioteca da escola, a FEIRA do LIVRO. Há livros para todos os gostos e para todas as idades…
É o lugar ideal para comprar uma inesquecível prenda de Natal! Obrigatório visitar!

MAIS LIVROS, MAIS LIVRES!

Profª Maria Cardoso

28 de setembro de 2010

O Livro da Quinzena

Na Biblioteca da ESCM

18 de junho de 2010

Adeus, José Saramago!


16 de Novembro de 1922 - 18 de Junho de 2010


«Morre aos 87 anos Saramago, Nobel da Literatura em 1998

O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998 José Saramago morreu hoje aos 87 anos em Lanzarote. O autor português encontrava-se doente mas em estado «estacionário», mas a situação agravou-se, explicou o seu editor, Zeferino Coelho.

José Saramago nasceu na aldeia ribatejana de Azinhaga, concelho de Golegã, no dia 16 de Novembro de 1922, embora o registo oficial mencione o dia 18.

Os seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda não tinha três anos de idade. Toda a sua vida tem decorrido na capital, embora até ao princípio da idade madura tivessem sido numerosas e às vezes prolongadas as suas estadas na aldeia natal.

Fez estudos secundários (liceal e técnico) que não pôde continuar por dificuldades económicas. No seu primeiro emprego foi serralheiro mecânico, tendo depois exercido diversas outras profissões, a saber: desenhador, funcionário da saúde e da previdência social, editor, tradutor, jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, um romance («Terra do Pecado»), em 1947, tendo estado depois sem publicar até 1966. Trabalhou durante doze anos numa editora, onde exerceu funções de direcção literária e de produção. Colaborou como crítico literário na Revista Seara Nova.

Em 1972 e 1973 fez parte da redacção do Jornal Diário de Lisboa onde foi comentador político, tendo também coordenado, durante alguns meses, o suplemento cultural daquele vespertino. Pertenceu à primeira Direcção da Associação Portuguesa de Escritores. Entre Abril e Novembro de 1975 foi director-adjunto do Diário de Notícias.

A partir de 1976 passou a viver exclusivamente da escrita, inicialmente como tradutor, depois como autor.

Em 1980, alcançou notoriedade com o livro «Levantado do Chão», visto hoje como o seu primeiro grande romance. «Memorial do Convento» confirmaria esse sucesso dois anos depois.

Em 1991, publica «O Evangelho Segundo Jesus Cristo», livro censurado pelo Governo - o que levou Saramago a exilar-se em Lanzarote, nas Ilhas Canárias (Espanha), onde viveu até hoje. Foi ele o primeiro autor de língua portuguesa a receber o Prémio Nobel de Literatura, em 1998.

Entre os seus outros livros estão os romances «O Ano da Morte de Ricardo Reis» (1984), «A Jangada de Pedra» (1986), «Ensaio sobre a Cegueira» (1995), «Todos os Nomes» (1997), e «O Homem Duplicado» (2002); a peça teatral «In Nomine Dei» (1993) e os dois volumes de diários recolhidos nos «Cadernos de Lanzarote» (1994-1997). »

12 de dezembro de 2009

Leituras de Natal II - Série III

A Batalha de Natal


— Só mais seis dias — disse Neli.
Enquanto a filha tentava assobiar Noite Feliz, a mãe repetiu, pensativa, numa voz que não soava alegre:
— Ainda seis dias.
Após uma curta pausa, prosseguiu, suspirando:
— Se tudo já tivesse passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olhou para a mãe com ar estupefacto:
— Não estás contente?
— Claro que sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tinha aulas à tarde, foi patinar com uma amiga. Ao cair da noite, dirigiu-se ao supermercado onde a mãe trabalhava. Havia tanto movimento que o lugar mais parecia uma colmeia. A mãe estava sentada numa cadeira giratória, diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegavam-lhe num tapete rolante. Enquanto a mão direita marcava os números no teclado, a mão esquerda rodava as embalagens para que a máquina pudesse ler os códigos. Finda a operação, os produtos eram colocados, um a um, no carrinho de compras. Quando acabava de marcar tudo, a mão direita carregava na tecla do total e rasgava o talão, enquanto a esquerda afastava o carro cheio e puxava o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar e, ainda por cima, metade saía mal.— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço e, muitas vezes, carregava nas teclas erradas. Como tinham de esperar, as pessoas resmungavam. Agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
E se tivesse um robô como mãe? Nunca teria dores de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração e, por isso, Neli preferia a mãe tal como era, mesmo quando, em certas noites, quase nem conseguia falar de tão cansada!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abasteciam-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam e fechavam, abriam e fechavam. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe, tinha escrito a vermelho: PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.Perto dele balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80€/kg.
Os altifalantes debitavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
DescafeinadoPapel higiénico de três folhas
O Senhor…
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe suspirava e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando apenas no regresso a casa com os sacos pesados e o eléctrico cheio.
Ufa!
Só mais três dias, e acabaria tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse a mãe, à noite, virando-se para Neli. — Patê em folhas de alface, porco assado, batatas fritas, feijão e, para sobremesa, creme de chocolate de lata com peras.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que tinham sobrado. A mãe de Neli achava que valia a pena e, por isso, tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, e a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, houve um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — alegrou-se o chefe do pessoal, que proferiu mais umas palavras elogiosas.
Depois foram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho a cada um.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!”, pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não voltava a abrir. Chegou a casa de mãos vazias.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me caem bem.
Também não havia muito que desembrulhar.

Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo “Memory” que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado “Memory”. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente queria ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.Tentava alguns truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de forma a que o polegar indicasse a direcção em que estava uma determinada carta. Mas Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangou por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou que, afinal, a mãe estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe, admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.



Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen

Wien, Herder, 1987
(Tradução e adaptação)


via O clube de Contadores de Histórias

3 de dezembro de 2009

Leituras de Natal - I- Série III

O Primeiro Natal em Portugal

É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.

A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.

O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,

Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.

ОЛiВЕДЬ — lápis

ЗОШИТ — caderno

КИГА — livro

ШКОЛА — escola

Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?

Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...

Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:


Irina, Irina, Irina,

Que menina tão fina!

Tem cara cor de sal,

Olhos cor de piscina.

Cabelos cor de margarina.

Ai, doem-te as saudades?

Vai tomar aspirina.


Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.

Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?

Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:

— Pareces uma fada!

E foge logo a correr.

Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.

— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?

Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?

Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.

É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.

Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!

De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...

Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!

— Acudam! Acudam!

Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.

Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.

Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.

Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.

— Ladrão atacar tu? Estar doente?

Tremendo, a outra responde:

— Chama o 112. O bebé vai nascer.

Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.

Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.

— Pai, pai! — grita ela.

Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.

— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?

Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.

Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.

— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.

A miúda obedece, confusa.

— Traz-me roupa lavada, para me mudar!

O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.

— Irina, a água já ferve?

De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.

— Força! Coragem! Está quase...

De súbito ouve-se o choro de um bebé.

— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.

Entrega-lhe o recém-nascido.

A rapariga, na cama desalinhada, sorri.

— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.

Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.

O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.

— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.

— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...

As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.

— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.

A mãe olha para o homem e pergunta:

— Como é que o doutor se chama?

— Anton.

— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.

As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.

— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.

— Manhã nós visitar! — exclama a garota.

Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.

— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.

Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.

Para uma fada loura.

com amizade

A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.

— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.

— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.

Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:

OЗНАКА — fada

Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.


Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006

Via O Clube de Contadores de Histórias: eb23s@contadoresdehistorias.com http://www.prof2000.pt/users/historias/
Biblioteca da Escola Secundária Daniel Faria – Baltar




30 de outubro de 2009

À conversa com o autor de "Não Tenhas Medo do Escuro", Prof. Doutor Gabriel Magalhães

Durante duas horas, o auditório da nossa Escola ficou preso à “magia da(s) palavra(s) do Prof. Gabriel Magalhães, que discorreu sobre os vários temas que perpassam na narrativa, bem como sobre o complexo e enigmático processo da construção das (suas) personagens.
Seguiu-se um curto, mas vivíssimo debate, no qual o autor pôde responder a algumas questões colocadas pelo auditório.
No final, o balanço foi muito positivo.
Equipa da Biblioteca

28 de outubro de 2009

"Eu e os Livros"

Convidam-se os Exmos. Senhores Encarregados de Educação para estarem presentes com os seus Educandos numa sessão informal, subordinada ao tema "Eu e os Livros", a realizar na Biblioteca Escolar no dia 29 de Outubro, pelas 18h30m.
A sessão será orientada pela Srª Drª Dina Matos, responsável pela Biblioteca Municipal do Fundão.
Esta sessão pretende dar a conhecer aos Encarregados de Educação o espaço da B.E., as suas potencialidades e motivar para a leitura.
Após a sessão será oferecido um chá.
------------------------------------------Isabel Lino, Coordenadora da B.E

27 de outubro de 2009

Amanhã, 4ªfeira, À conversa com os livros

No Auditório da Escola, pelas 16h, a apresentação do livro:
Não Tenhas Medo do Escuro

Sinopse
Um cadáver que desaparece; uma mulher que morreu - e que talvez não tenha morrido; um pintor louco; uma governanta que se dedica a afogar gatos pretos; um poeta que recita nas estações de serviço e um enigmático velho de barba branca; uma japoneira movendo-se de um lado para o outro. Eis alguns dos ingredientes narrativos de Não Tenhas Medo do Escuro, romance que obteve o Prémio de Revelação APE/DGLB.

Afectada por um cancro, uma professora procura um sentido para a sua vida. Vagueia por Lisboa, Porto e Amarante; entretanto, uma criatura de sombra persegue-a. Após a sua morte, o seu corpo desaparecerá. A chave para este enigma encontra-se nos poemas que analisou com os seus alunos e nas pessoas que conheceu nos seus últimos meses. Não Tenhas Medo do Escuro é um romance de mistério, uma homenagem à poesia portuguesa e uma reflexão sobre o valor da vida e o poder da arte.

http://www.wook.pt/ficha/nao-tenhas-medo-do-escuro/a/id/1532882

22 de outubro de 2009

À conversa com os livros

...com o Prof. Dr. Gabriel Magalhães*

Integrado no mês das BEs irá decorrer no próximo dia 28, 4ªfeira,
no Auditório da Escola, pelas 16h, a apresentação do livro:
Não Tenhas Medo do Escuro

*Gabriel Magalhães é doutorado em Filologia Hispânica e Portuguesa, Professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Salamanca e de Literatura Espanhola na Universidade da Beira Interior, profundo conhecedor das culturas de Espanha e Portugal. Reside actualmente em Portugal, mas já viveu na Galiza, no País Basco e em Castela. Lançou recentemente o livro Não Tenhas Medo do Escuro.