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9 de março de 2007

Incentivo à Leitura



«Ler, mais do que um saber é um
prazer... »



«Ler, é a única forma de viver várias vidas... »



Um grupo de alunas do 12º E de Ciências Sociais e Humanas assinalou o último dia da semana da leitura, que termina hoje na escola.

As alunas realizaram o seu trabalho de Área de Projecto Mulheres que marcaram a História, planificado para assinalar o dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. À palestra assistiram as turmas do 7ºA e do 8ºB.

8 de março de 2007

Semana da Leitura/Dia Internacional da Mulher

Mulheres que marcaram a História


Amanhã, encerra-se a Semana da Leitura na Campos Melo com a realização de uma actividade inter pares.

Pelas 15h e 10m, no auditório, terá lugar um painel orientado por alunas do 12º E, de Ciências Sociais e Humanas, dirigido a colegas seus do 7º e 8º anos.

Ana Henriques, Daniela Martins, Nazaré Sousa e Sofia Barata, oradoras com currículo feito na ESCM, vão expor o seu trabalho de Área de Projecto, Mulheres que marcaram a História - planificado para assinalar o dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher - no qual põem em evidência a importância histórica das figuras de Cleópatra, Frida Kahlo e Adelaide Cadete.


Elas prometem!





Mulheres



Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas brigam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando
acreditam que existe melhor solução.

Elas andam sem novos sapatos
para as suas crianças poderem tê-los.
Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.

Elas choram quando suas crianças adoecem
e alegram-se quando as suas crianças ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem
sobre um aniversário ou um casamento.

Pablo Neruda

Ana Luísa Amaral

1957

A




A VERDADE HISTÓRICA

A minha filha partiu uma tigela
na cozinha.
E eu que me apetecia escrever
sobre o evento,
tive que pôr de lado inspiração e lápis,
pegar numa vassoura e varrer
a cozinha.

A cozinha varrida de tigela
ficou diferente da cozinha
de tigela intacta:
local propício a escavação e estudo,
curto mapa arqueológico
num futuro remoto.

Uma tigela de louça branca
com flores,
restos de cereais tratados
em embalagem estanque
espalhados pelo chão.

Não eram grãos de trigo de Pompeia,
mas eram respeitosos cereais
de qualquer forma.
E a tigela, mesmo não sendo da dinastia Ming,
mas das Caldas,
daqui a cinco ou dez mil anos
devia ter estatuto admirativo.

Mas a hecatombe
deu-se.
E escorregada de pequeninas mãos,
ficou esquecida de famas e proveitos,
varrida de vassouras e memórias.

Por mísero e cruel balde de lixo
azul
em plástico moderno
(indestrutível)

Minha Senhora de Quê, Quetzal Editores, Lisboa, 1999


A

Alice Vieira
1943






Carta para Clarissa


Olho para a janela e lembro-me de ti. "Só agora acredito que a Primavera chegou", murmuro, tal como o teu amigo Amaro, olhando-te, a brincar sob os pessegueiros, junto das glicínias roxas que espiavam por cima do muro do jardim. Quando o ar se enche dos cheiros da Primavera, lembro-me sempre de ti. E todas as meninas de fitas no cabelo, caminhando entre os canteiros dos jardins, têm o teu rosto. O rosto que eu construí ao longo destes anos todos - adolescente, luminoso, claro. O rosto que têm sempre as amigas perfeitas que nos acompanham a vida inteira.E tu foste a mais perfeita das amigas. No casarão da minha infância, de janelas fechadas para que o sol não estragasse a mobília, com o chão a ranger noite dentro, sob os passos candenciados da tia Irene (que sofria de insónias), tu eras a certeza de que a vida podia ser outra coisa. Desde o dia que te conheci eu percebi que, para lá da escuridão e dos corredores intermináveis da casa, havia mundos diferentes, com jardins onde se podia correr, música vinda sabia-se lá donde, a brisa a invadir o nosso corpo, e mães que prometiam às filhas: "quando tiveres catorze anos, dou-te licença para usares sapatos de salto alto."Eu era então muito pequena, e as tias admiravam-se de me ver tão interessada naquele livro enorme, sem bonecos, que se calhar até era de alguma delas: as tias tinham muitos livros mas, diziam, ler faz muito mal aos olhos e, além disso, tratar de uma casa dá muito trabalho e não há tempo para distracções.Naquele livro estavas tu. E o teu amigo Amaro, e o menino na cadeira de rodas, e as cantigas de Nestor, as risadas de Nico Pombo, os filmes de Gary Cooper e de Jean Harlow, e a tia Zina, e as discussões dos habitantes das pensão - e sobretudo aquela paixão pela vida que rebentava das palavras todas. Nessas páginas te encontrei, e foi contigo que aprendi que, mesmo em casarões escuros e no meio de gente com medo do sol, é sempre preciso acreditar que a claridade é mais forte, que a felicidade é possível, mesmo que se construa apenas com o cheiro dos jardins, meninas de cabelo a esvoaçar ao vento, música triste a sair das casas, pessoas que não conhecemos e nos sorriem pela manhã, as vidinhas banais de quem passa a nosso lado, e a voz das mães estendendo-se ao fim da tarde pelas ruas, chamando os filhos porque são horas de jantar. E foi contigo que descobri que a vida parece sempre melhor de manhã, com sol, vento fresco e céu azul. Se possível com gente que acabou de acordar e se debruça da janela e nos deseja um bom dia. Penso que seríamos todos mais felizes se os nossos dias começassem dessa maneira.Ensinaste-me a ser adolescente - e a sobreviver. Anos depois, ensinaste a minha filha. Tens ensinado muitas das minhas amigas adolescentes que, através de mim, te conhecem. Daqui a meia dúzia de anos espero que ensines a minha neta - que já está à tua espera. Acho que nunca te agradeci devidamente tudo o que fizeste por mim. Nem a ti nem a quem te deu vida e palavras: o escritor brasileiro Érico Veríssimo, no tempo em que do Brasil nos chegava a grande literatura e não as telenovelas. Acho que nunca te agradeci não apenas o teres-me ajudado a sobreviver a uma infância complicada e solitária, mas sobretudo o teres ensinado a todos os que te conheceram que, bem lá no fundo, a adolescência é sempre igual - seja nos anos quarenta, seja no ano dois mil. Pode o exterior mudar, podem usar gangas rasgadas, tatuagens nos braços, mangas até aos joelhos, calças a cair pelas pernas abaixo, pérolas no umbigo, cabelos às madeixas roxas e verdes, piercings na língua, vocabulário cabalístico, telemóvel colado à orelha - lá por dentro têm os mesmos medos, as mesmas inseguranças, as mesmas angústias, os mesmos (incofessavelmente românticos) sonhos. O pior de tudo é que hoje ninguém te encontra em Portugal. "Clarissa"?, espantam-se os editores, "está esgotado há uma data de anos e ninguém edita agora." Socorro-me de amigos brasileiros, de algumas idas ao Brasil, e lá vou trazendo alguns exemplares (no Brasil há edições lindíssimas com a tua história). Mas tenho muita pena que tenhas desaparecido das nossas vidas, sobretudo neste momento complicado em que, tenho a certeza, irias fazer muito bem aos meus amigos mais novos.Se eu mandasse, tu serias leitura obrigatória nas escolas.E tenho cá uma fé de que muita coisa seria diferente.Volta depressa! Fazes muita falta.

Lídia Jorge
1946




Sou de vidro

Meus amigos sou de vidro
Sou de vidro escurecido
Encubro a luz que me habita
Não por ser feia ou bonita
Mas por ter assim nascido
Sou de vidro escurecido
Mas por ter assim nascido
Não me atinjam não me toquem
Meus amigos sou de vidro

Sou de vidro escurecido
Tenho fumo por vestido
E um cinto de escuridão
Mas trago a transparência
Envolvida no que digo
Meus amigos sou de vidro
Por isso não me maltratem
Não me quebrem não me partam
Sou de vidro escurecido

Tenho fumo por vestido
Mas por assim ter nascido
Não por ser feia ou bonita
Envolvida no que digo
Encubro a luz que me habita


Ana Hatherly
1958




Auto-retrato

Este que vês, de cores desprovido,
o meu retrato sem primores é
e dos falsos temores já despido
em sua luz oculta põe a fé.

Do oculto sentido dolorido,
este que vês, lúcido espelho é
e do passado o grito reduzido,
o estrago oculto pela mão da fé.

Oculto nele e nele convertido
do tempo ido excusa o cruel trato,
que o tempo em tudo apaga o sentido;

E do meu sonho transformado em acto,
do engano do mundo já despido,
este que vês, é o meu retrato.

A Idade da Escrita, Lisboa, Edições Tema, 1998


Vozes e olhares no feminino

Maria Isabel Barreno
1939





1º Capítulo:

O dilema No dia em que quis publicar um poema sem o devido enquadramento prosaico, disseram-lhe:
— Não pode. Há um problema de géneros.
Sem saber como resolver o enigma, o autor — cha­memos-lhe João, para complicar os factos — interro­gou:
— De géneros? Se me chamasse Isabel poderia publicar o poema?
Explicaram-lhe que não se tratava de géneros gra­maticais, nem biológicos, nem sociais, mas sim de géneros literários.
— Não publicamos poesia.
João recolheu a casa e criou duas personagens. Cha­mou-lhes Paulo e Virgínia para lhes garantir, à nas­cença, ecos literários anteriores.


2º Capítulo:

Um autor em busca de personagens
Paulo, rapaz poeta, inspirado nos seus actos de amor com Virgínia, escreveu:
«Punhalada de cálamo
acutilante em matéria
hesitante
Do veio ou ferida
incipiente pingam as palavras uma a uma
recolhidas
com piedade semântica».
Virgínia, também poeta, que hesitava em ir viver com Paulo no receio de se deixar apanhar nas armadi­lhas do trabalho doméstico, escreveu:
«Na fome das traças na podridão
dos bafios um outro real
se esboça construído
pela falta roído
pela necessidade esculpido».
Paulo, em dia de dificuldades (com dúvidas siste­máticas que começaram na gramática e se alastraram rapidamente a si próprio, ao mundo e ao significado último de todas as coisas), e contemplando Virgínia no acto de fazer a cama onde os dois tinham amado e dor­mido, escreveu:
[...]

Maria Teresa Horta
1937





Minha senhora de mim

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito

Minha Senhora de Mim, Editorial Futura, 1974 - Lisboa, Portugal


Vozes e olhares no feminino

Maria Judite de Carvalho

1921-1998




Perplexidade

A criança estava perplexa. Tinha os olhos maiores e mais brilhantes do que nos outros dias, e um risquinho novo, vertical, entre as sobrancelhas breves. «Não percebo», disse. Em frente da televisão, os pais. Olhar para o pequeno écran era a maneira de olharem um para o outro. Mas nessa noite, nem isso. Ela fazia tricô, ele tinha o jornal aberto. Mas tricô e jornal eram alibis. Nessa noite recusavam mesmo o écran onde os seus olhares se confundiam. A menina, porém, ainda não tinha idade para fingimentos tão adultos e subtis, e, sentada no chão, olhava de frente, com toda a sua alma. E então o olhar grande a rugazinha e aquilo de não perceber. «Não percebo», repetiu. «O que é que não percebes?» disse a mãe por dizer, no fim da carreira, aproveitando a deixa para rasgar o silêncio ruidoso em que alguém espancava alguém com requintes de malvadez. «Isto, por exemplo.» «Isto o quê» «Sei lá. A vida», disse a criança com seriedade. O pai dobrou o jornal, quis saber qual era o problema que preocupava tanto a filha de oito anos, tão subitamente. Como de costume preparava-se para lhe explicar todos os problemas, os de aritmética e os outros. «Tudo o que nos dizem para não fazermos é mentira.» «Não percebo.» «Ora, tanta coisa. Tudo. Tenho pensado muito e...Dizem-nos para não matar, para não bater. Até não beber álcool, porque faz mal. E depois a televisão...Nos filmes, nos anúncios...Como é a vida, afinal? » A mão largou o tricô e engoliu em seco. O pai respirou fundo como quem se prepara para uma corrida difícil. «Ora vejamos,» disse ele olhando para o tecto em busca de inspiração. «A vida...» Mas não era tão fácil como isso falar do desrespeito, do desamor, do absurdo que ele aceitara como normal e que a filha, aos oito anos, recusava. «A vida...», repetiu. As agulhas do tricô tinham recomeçado a esvoaçar como pássaros de asas cortadas.

in «O Jornal», 2-10-81


Natália Correia
1923-1993




Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

in Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, 1999

Poesias_e_Prosas

Agustina Bessa-Luís

1922





QUINTA DAS LÁGRIMAS

Fui há muitos anos à Quinta das Lágrimas, onde se diz que Inês foi morta. Lembro-me que se transpunha o rio atravessando uma ponte de madeira cujas tábuas gemiam e ba­loiçavam. Parecia uma ponte militar, para assédio à cidade.
A Quinta das Lágrimas esteve para ser comprada pelo meu pai quando ele veio do Brasil e se deixava sugestionar pelas lendas históricas e coisas famigeradas de glória antiga. Havia uma enorme árvore da cânfora nos arredores da casa, que era como uma estufa, com muitos vidros e caixilhos descascados. Numa caleira de pedra corria a água. sobre um líquen vermelho. Dizia-se que era «o sangue de Inês». Como disse, a moradia era decepcionante, um pouco ao estilo dos chalés de Sintra em que veraneavam os banqueiros do século XIX e os ricos-homens dos cafezais de S. Tomé. Esta­vam na moda os jardins de Inverno, e nesse tipo de casas havia pavilhões envidraçados onde se tomava chá e bebia água de sifão. Mas não posso garantir que na Quinta das Lágrimas fosse assim.
Era numa tarde muito quente, em Maio. O calor de Maio, em Coimbra, traz no coração o perfume da tília em flor; desde o alto do Jardim da Sereia ele abate-se até ao fundo da cidade como um lenço abafante e suave. É um calor e um perfume que deprimem. Acompanham os estudantes quando eles revêem a matéria, fumando com gesto irritado e deixando o olhar parar nas varandas da frente onde outros estudantes mourejam nas páginas das sebentas.
Mas, voltando à Quinta, que está num vale sem horizontes, que seriam dantes os fecundos campos de regadio, com manantes a visitar-lhe os muros para roubar capões e melancias: estranhei-a, de tão deserta. Não havia um só visitante, ou um morador; e não vi também guardião. Só um cãozito sujo, de pêlo em que a lama secara, me lançava de longe alguns ladridos curtos, sem cólera, por simples obrigação.
A casa não tinha cortinas nem vestígios de ser habitada. Havia, em volta, alguns canteiros onde crescera a beldroega e umas açucenas tão altas que podiam chamar-se o bordão de S. José. Na parede, uma mancha de água que se infiltrara pelo telhado parecia a sombra de uma mulher; uma mulher alta e corpulenta, que risse, os ombros deitados para trás. Ouvi, ou pareceu-me, um arrastar de passas, mas durou pouco; tudo ficou silencioso outra vez. Porém, quando eu já me afastava vi, sentada numa velha cadeira de verga, uma senhora ainda nova, com uns óculos na mão direita e que olhava para mim com uma frieza condescendente. Se era a dona da casa era uma excêntrica, porque estava vestida com uma saia cor de ferrugem, tendo por cima um vestido verde, aberto, e um cinto dourado. Os cabelos usava-os soltos e eram de um belo loiro carregado com reflexos mais claros sobre as orelhas. O rosto era rosado, mas notava-se que usava carmim, muito fino e brilhante. Estendeu as pernas com um movimento preguiçoso; estavam nuas e eram tão brancas como o ventre das trutas. Até certo ponto parecia muito uma lavradeira abastada, dessas do Alto-Minho que se descalçam ao fim das tardes de Verão para ir regar, [...]


“Adivinhas de Pedro e Inês”, Guimarães & C.a, Editores, 1983


Sophia de Mello Breyner

1919-2004





Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino




Ilse Losa
1913-2006





Gosto de observar Teresa a corrigir os cadernos escolares à luz do candeeiro. Sempre que os disparatados erros dos seus pequenos alunos a fazem sorrir, ela inclina a cabeça sobre o ombro, as pálpebras descem-se-lhe ligeiramente e o rosto ganha uma graça meiga e quente. Talvez no conceito geral Teresa não seja uma mulher bonita:
tem feições pouco regulares, a boca muito carnuda, o nariz comprido demais e quando lhe estremecem as narinas faz lembrar um coelhinho. Mas tudo isso se harmoniza com o corpo esbelto de porte direito, com o pescoço alto, a cabeça estreita, o cabelo dum negro brilhante e espesso que ultimamente junta num puxo arrepanhado na nuca.
Teresa dá aulas na escola primária duma zona pobre, num edifício velho, quase a cair, onde largas frinchas por debaixo das portas e das janelas provocam constantes correntes de ar. Se ao princípio manifestara entusiasmo pelo curso, embora apenas o tirasse porque Severino achava ser o curso que levava menos tempo, ficava barato e proporcionava rapidamente o ganha-pão, pouco a pouco foi ficando desiludida.
«As colegas mais velhas batem naquelas pobres crianças a torto e a direito», diz. «Eu só me resolvo a bater-lhes, mas apenas nas mãos, se me aparecem com as orelhas sujas ou piolhos na cabeça depois de as ter repreendido repetidas vezes». Por vezes ela chega desanimada a casa, dizendo não suportar por muito mais tempo o ensino a crianças que, de tão carecidas de carinho e de alimentação, nem conseguem prestar atenção às suas explicações. E começamos a fazer planos para uma livraria, num bairro afastado do centro e de como haveremos de juntar o dinheiro para isso. Teresa ajudar-me-á na arrumação dos livros, no balcão, na caixa.
Dentro de dois ou três anos começaremos a editar uma colecção de livros de pequeno formato, de preço módico, mas de muita qualidade. E havemos de contratar óptimos tradutores para os livros estrangeiros, apresentar capas de bom gosto, havemos de nos prestigiar para progredir depressa, poder dispensar a loja e dedicar-nos exclusivamente às edições. E Teresa gostaria de organizar uma colecção para crianças, com gravuras coloridas, e sempre que estamos com o Renato aconselha-se com ele sobre o assunto... Planos, planos, planos... E depois tudo continua na mesma, Teresa a tentar ensinar as crianças cheias de fome e piolhos e eu a traduzir cartas comerciais a troco de remuneração mais ou menos razoável e livros de ficção por remuneração humilhante, porque o comércio governa e a literatura vegeta.

SOB CÉUS ESTRANHOS, Ed. Afrontamento, 1992


Florbela Espanca
1894 – 1930



A

Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Versos de segunda

Irene Lisboa
1892-1958




A Gravura

E o sonho com uma gravura que havia, muito do meu gosto?Sonhei que aquilo tudo era real: vi-a animar-se, mexerem-se as figuras...Nisto abria-se o portão. Por uma alameda abaixo vinham dois cavaleiros e uma amazona. Ela falava e ria-se e até voltava a cara para trás. Procurava com os olhos um belo cavaleiro, desirmanado do grupo, que montava um cavalo bravio. Também havia mais cavaleiros e amazonas, que se não distinguiam lá muito bem.Mas tudo aquilo era bonito, era elegante.Saíram todos do portão, finalmente, e até uma das damas, com a ideia que teve de arrancar um tronquinho de hera, ia caindo do cavalo abaixo.Deixei de ouvir o trupe dos cavalos e as vozes e vi-me sozinha. Só, só de todo! No meio do campo. Fazia um luar divino. E todo o meu desgosto era de não ser fidalga, de não pertencer também à cavalgada.Pus-me a andar de um lado para o outro e a falar só. Porque não tinha eu ido com eles? Com eles é que eu devia ter ido! À noite vestiria um fato de baile...Olhei para o chão, que me pareceu todo malhado. Eu não devia pisar nenhuma daquelas malhas. Eram de luar líquido. Devia saltar por cima delas, e era o que fazia. Dava cada salto! Cheguei a saltar de árvore para árvore. De cima de uma delas até descobri um salão onde as fidalgas andavam a dançar.Lá lá lá...lá lá lá...lá lá lá...Que valsa tão doce e tão agradável! Conhecia-a tão bem!Eles, de calção de seda e de meia alta, elas, de cauda...Deixem-me dançar também, dizia eu, sem que ninguém me pudesse ouvir. Por fim agarrei-me a uma árvore e pus-me a andar à roda.Mas que vergonha, que vergonha! Descobriram-me!Nisto acordei.
in «Uma Mão Cheia de Nada Outra de Cousa Nenhuma», Porto, Livraria Figueirinhas




Novo Desafio de Leitura

Este, mais concentrado no tempo, pretende homenagear a figura feminina nas pessoas das escritoras que seleccionámos e cujos textos reproduzimos.
Esperamos que gostem!
A

Dia(s) da mulher

A
«Qual foi o acontecimento do ano em Portugal?»

«Para mim, é a repetição do milagre que as mulheres portuguesas continuam a fazer
Estão nas filas dos transportes públicos às seis da manhã para ir para o trabalho e depois, à noite, em casa, vão mantendo tudo como se lá estivessem estado todo o dia.
Face ao que fazem todos os dias, tudo o mais no país é realmente banal.»

Mário Crespo in Revista Notícias Sábado, do Jornal de Notícias, 30 de Dezembro de 2006.